Sunday, 29 April 2007

Bocadinho de vida



Passa o outro lado do ser e vê se existes, dentro do pequeno ser que julgas ser grande, dentro da grandeza que é a pequenez da tua incultivada alma. Procura a luz da incompletude que é na vida o mais simples que há em ti e nos outros. Alcança o pó que só tu és na terra, e dá-te a cada sopro de vida que for também teu, ou que ames como se fosse. Usa as palavras quantas vezes quiseres até reconheceres que o silêncio já diz tanto ou mais que elas. E quando conseguires um bocadinho disto tudo com o bocadinho de nada que és… podes começar a viver!
Porque não há vida que caiba na vida sem nada disto!
filipaferreira 29-12-2006

Wednesday, 18 April 2007

curvas


Assim me deixas, nestes abrigos ao inevitável. Numa casa encerrada a sete chaves, sem janelas, sem nada mais do que um pouco do resto de ar que escolhi para respirar. Uma respiração cortada em cores, como um arco-íris, que fizeste questão de separar em rasgões sem nexo nem sentido, sem corte nem medida.


Mas as curvas deste caminho não me embriagam. A embriaguez, essa sim, existiu quando tu ainda existias em mim. Quando os sorrisos pareciam não terminar e as pernas tremiam. Faz-me explodir os sentidos, sim, a ideia de ter que percorrê-lo sem te ter a meu lado. E no vagueio de uma tontura inebriante acordo lúcida de um sonho que nunca cheguei a ter. Uma lucidez que me estupidifica até à última ponta de cabelo e me corta o sorriso em quatro. As quatro linhas que traças-te, que pensei serem de um caminho com volta. Mas a seguir a uma volta veio outra, e a seguir a elas uma sucessão de voltas que me fizeram perder a capacidade de reorganizar esses pedaços de boca rasgada.


E por isso o meu conjunto desorganizado resume-se a um silêncio ensurdecedor de uma alma embriagada. Uma embriaguez que transformava sempre as curvas em caminhos concretos, porque eras tu a apontar-me a direcção, mas que hoje nada mais é que uma alma lúcida em ressaca. Por isso as curvas sucedem-se, e o meu percurso não se parece com nada mais, senão com vastidões de campos ameaçados por travagens bruscas de um ser partido em dois, em três, em tantos quanto o número de chaves com que me encerras-te neste céu sem sol.

Mas este caminho que percorro já não me embriaga mais do que a lucidez que me deixaste como recordação. E quem dera que eu não a visse a meu lado, aqui, nesta casa em que me vou separando em pedaços... pedaços meus que já não cabem em mim. E são eles, os pedaços rasgados de caminhos percorridos a teu lado, de sorrisos cortados, que quero aqui trancar, esses sim, a sete chaves. Sair deste buraco sem fundo, sem cor, e voltar a respirar o resultado de uma subtracção entre o ar do mundo e o ar que é o teu... e então, conseguir escapar à tortura de curvas sem volta deste meu caminho que existe porque tu já não existes nele. Porque não me embriaga a ideia de ter que o percorrer... mas deixa-me sem rumo a realidade concreta de ter que percorrê-lo sem ti...


filipaferreira 18-04-2007

Saturday, 7 April 2007

Ponteiros de relógio


Passeiam loucos os ponteiros do relógio, como multidões que correm incessantemente em caminhos que se cruzam. Esqueceram-se dos limites do tempo… todos se esqueceram dos limites do tempo...

E, de repente, tudo na vida se resume a horas, minutos, segundos. As horas transformadas em dias, meses, anos, que demoramos para construir a eternidade do que se procura toda a vida, os segundos que demoramos a destruí-las.

Mas os caminhos percorrem-se passo a passo, ao ritmo de qualquer relógio. O relógio que cavalga a uma velocidade vertiginosa quando estamos felizes, que esquecemos quando perdemos a noção do tempo, que pára quando nos rodeamos de sentimentos intempestivos que nos afundam a alma.

Mas as tempestades sucedem-se, os muros da vida vão aumentando e, de repente, lá estamos nós suspensos num ponteiro de qualquer relógio a tentar olhar para o mundo que fica para lá de nós. Aquele mundo que nos persegue enquanto tentamos escapar às rasteiras que a vida nos impõe. E sem nos apercebermos, estamos rodeados de números que se repetem sem que nada mais mude, de movimentos circulares de ponteiros descoordenados que nos enlouquecem.

E o pouco tempo que se tem nunca é aquele que usa enquanto os segundos avançam depressa, mas aquele que se perde quando deixamos que a vida pare em nós. Por isso, o tempo que temos que aproveitar é aquele imediatamente entre o segundo que já passou e o outro que vem a chegar. Tudo o resto são ponteiros do relógio mortos por ultrapassarem números numa corrida incessante para fugirem de si próprios…

filipaferreira 07-04-07