Wednesday, 6 February 2008

carta

Faltam-me as palavras para decifrar o que resta da vontade que não é a minha.

Afinal desistimos. Gravámos o sabor do último abraço, do olhar até sempre. Lutámos sempre de menos, vivemos sempre de menos, como se espera de um rewind com uma pausa assim. Chamar-lhe-ei pausa. Uma pausa para sempre num amor demasiado intenso.

O que nos faltou foi isso. Aquilo que este vazio não me deixa ainda ver.

E se o amor não nos deixa ver nem um palmo à frente do nariz, talvez estivessemos estado sempre um palmo atrás do nosso.

Não construímos os alicerces, nem destruímos as brasas. Chamámos-lhe um dia amor, vivemo-lo um dia, e hoje em dia olhamos as cinzas com sabor a saudade, tentando preencher essas ausências que lhe faltaram.

Talvez o caminho seja só este. Será. Nunca houve nenhum “tarde demais”. Estávamos lá os dois. Caminhámos os dois para aquela estação de comboios, em que metade do dinheiro com que compraste o bilhete, era meu. Chegámos a horas, e ainda esperámos dois minutos. Tempo suficiente para não sei o quê. Não sei o quê.

Carreguei-me contigo na tua bagagem antes de entrares. Foram os dois minutos da minha vida. Não nos olhámos, não colámos as mãos ao vidro. Não era uma despedida.

Vi o comboio partir, e já sabia que era para sempre.



filipaferreira 06-02-2008