Tuesday, 27 March 2007

rectas paralelas


Os espaços mortos que me deixas são uma soma de rectas paralelas que nunca se chegam a cruzar. São elas que constroem o túnel através do qual vou caminhando, sem saber muito bem para onde e até quando, sem conseguir antever o seu fim.

Mas cá estou eu, rodeada de nadas infinitamente concretos, de falas profundamente silenciosas, de cadeiras vazias e esperas demoradas. Bebo o meu café de manhã, e o nível desse líquido opaco contínua imóvel no copo que é o teu… a tua cadeira vazia… a tua ausência presente. O telefone toca, ouço a tua voz quando atendo, mas não tenho registo de chamadas tuas.

E sem te ter a meu lado, os dias vão passando, enquanto por ti espero nessa esplanada de quiosque onde te vejo sempre… esperas demoradas… e na demora de um sinal teu, a cadeira a meu lado continua desocupada… e quem dera que o vazio que deixas em mim fosse só do tamanho desse lugar sem ninguém, a que já me habituei.

Mas todos esses “teus” continuam presentes em mim sem que ninguém os consiga alcançar. São tesouros perdidos no fundo do mar, que nem eu sei se de lá sairão algum dia. Sou eu, perdida no tempo do silêncio.

E é tudo tão vago como concreto, fugaz como eterno… uma fugacidade de aparições, conversas, trocas de calor quando as peles se tocam, por entre os espaços mortos, tão concretos, de rectas paralelas que nunca se chegam a cruzar…


filipaferreira 27-03-07

Monday, 19 March 2007

Banco de jardim


Num fogo desatado de emoções escrevo as letras das canções que deixaste em mim, como se a sua melodia fosse ecoar cá dentro até eu perder os sentidos. Os espaços deixaram de ser físicos, os sons audíveis, e o mundo já não me dá a mão. E de novo o que se sente e não se vê, me obriga a acreditar verdadeiramente nas coisas que conseguimos palpar, e não no barulho do mar, no assobio de um pássaro que não se vê.

Porque o que parece existir num dia, é muitas vezes o acordar de um sonho que se deixa a meio numa noite de tempestade. São histórias que sabemos de cor, mas que reflectem páginas em branco do nosso livro, como se nunca tivessem existido. E acreditar nelas parece utópico. Uma utopia com degraus e patamares que se percorrem vezes sem conta sem nunca sairmos do mesmo sítio.

Olho para o mundo lá fora, e os ritmos alucinados das vidas afogadas, dos tropeções fugazes, fazem antever bancos de jardim onde, Inverno após Inverno, só o sol se lá senta. E como tudo está tão distante e os olhares não se cruzam. Como os sentidos não se sentem e os passos não se dão, e as pessoas falam sem se ouvirem.

E de novo acredito nas coisas que temos como certas... num lugar a beira mar onde podemos sempre voltar, num copo que cai ao chão e se estilhaça, no tempo que não volta atrás, no ponto final da vida que nos espera.

E é num fogo agarrado de emoções que percebo tudo isto e permaneço imóvel, enquanto transformo os ecos das melodias que deixaste em mim em canções audíveis a todo o mundo. Esse mundo que me vai passando ao lado em ritmos alucinantes que se constroem sem se poder voltar atrás. Esse mundo que me vê sem me ouvir, e me olha sem se cruzar comigo. Esse mundo que deixo enquanto sonho, e que vejo passar por mim sem lhe conseguir tocar... eu, sentada num banco de jardim...


filipaferreira 19-03-2007

Friday, 16 March 2007

Guardar


Guardar…

Guardar as imagens que me vêm de ti
em explosões de beijos repescados
loucuras escondidas, corridas ganhas,
num filme que vimos…

As histórias que lemos, as canções que ouvimos,
houve um dia escuro em que cheguei a esquecer,
que há coisas que a vida grava na pedra que somos,
e que nós guardamos no sinónimo de eterno.

E o que se guarda é sempre menor do que o que se ganha,
maior do que o que se perde, e igual ao que se teve:
nunca se perde nada do que nunca se chegou a ganhar,
nem se guardam momentos que não tenham ficado primeiro gravados no filme que fomos.

Mas na loucura de lembrar
o que se guarda no sufoco de lutas perdidas,
esquecemos o que ficou para trás:
o porquê de um filme que pusemos na pausa,
que não vimos nem fomos,
e não lembrámos de guardar
na miragem do depois…


Guardar…
entontecer de tanto lembrar o que guardamos
no pedaço de sentimentos confusos que somos…
Como entonteço quando me lembro
do eterno que gravei em mim
com as imagens que me vêm de ti…


E como volto à realidade quando percebo
que guardei também a lembrança
de um filme que deixámos esquecido,
e guardámos para depois…


filipaferreira 16-03-2007