
Beijo os cantos de um lume apagado, e sinto-me eu meia fria meia bamba. Um bamboleio de vai-véns num corpo morto que fazem ouvir em repeat o refrão desta música que me adormece.
E tudo parece de novo tão distante. A distância de uma mão que não se agarra, de um corpo que caí. A distância de uma imagem lá ao longe, até ela meia turva, meia perdida. E os sentidos ficam secos de vida de um momento para o outro. Uma secura que me consome em lume brando sem que nenhuma onda de vento lhe consiga penetrar.
Mas os ventos também se agitam, também nos agitam. Criam luzes no escuro de uma madrugada sombria, acompanhadas de assobios lentos de notas de música que parecemos reconhecer de qualquer lado. Mas quando tentamos agarrar a imagem que está para lá do denso nevoeiro da nossa alma, é o vento fazer-nos rodopiar numa dança estonteante de sentidos perdidos no teatro da vida.
E ali estou eu, no meio de mim e de um nevoeiro que me faz bambolear neste vai-vém de antagonismos catastróficos. Que me faz temer a parte de mim que anseia que a velocidade dos ventos se intensifiquem, para ficar de novo mais perto da imagem que está para lá da bruma de cores cinzentas.
Mas tudo é de repente tão desfocado como concreto. A viagem de idas e voltas desesperadas repete-se, sem ter comprado pacotes de bilhetes em promoção, e eu não pareço nada mais do que um boneco de trapos que vai envelhecendo à medida que os ventos vão e vêm. E nada fica retido em mim destes quilómetros que faço sem sair do mesmo lugar. Apenas uma cabeça aos turbilhões, um corpo que espera uma ambulância que não chega, uma vida presa por um fio que nem se enrola nem desprende.
E os bamboleios vão e vêm, o meu corpo fica e vai... A distância viajou a anos-luz para longe de mim e eu fiz viagem com ela. E nada nunca me pareceu tão distante... a distância inatingível de uma alma que está longe demais para que eu a consiga alcançar... e com ela bamboleio eu, num vai-vém que vai mas não volta...
filipaferreira 05-05-2007