Mostra-me essas fotografias que deixaste guardadas na última gaveta da tua secretaria. Diz-me o que ficaram lá a fazer se decidiste excluir-me do filme a cores.
Não as guardaste a sete chaves porque nunca fizeram parte desse tesouro que tens vindo a construir. Podias tê-las entregue ao vento, mas guardaste-as. Não sei se as esqueceste, se foi a gaveta que ficou para último, ou só os momentos a ficarem para trás. Não sei se um dia quando mudares de casa a levarás contigo, ou se ela ficará no mesmo lugar, mas sem a secretária, sem os móveis, sem os sofás, sem ti.
Nada disso me importa pois guardei-as comigo. Escondi-as. Tranquei-as, eu sim, em cofre seguro para nunca ceder à tentação de as ir buscar. Dizem que olhos que não vêm coração que não sente. Ainda senti uns tempos. Tempos demais.
Parei, sabes. Escondi-me também eu durante uns tempos dentro dessa gaveta. Não sei se na esperança de te encontrar, ou de me ir buscar quando me encontrasse a mim. Seja como for, teria preferido ficar na segunda ou na terceira gaveta, pelo menos enquanto estive lá dentro.
Fui buscá-las no mês passado para as recordar. Soube-me bem. As fotografias são a prova que os momentos aconteceram e que participámos neles. Deixámos de ser essa sucessão de momentos para passarmos a ser um amontoado de imagens inertes no tempo. E agora é só lá que nos cruzamos. Dentro dessa gaveta. Dentro do meu coração. Onde te entreguei ao esquecimento.
filipaferreira 14-02-10