Sunday, 30 March 2008

suor

hoje sonhei contigo. navegavas no mundo dos meus sonhos com aquele à-vontade de quem tem as chaves de casa do mundo para entrar. aumentei o volume. adicionei-lhe cor. na limpidez de uma memória putrificada no tempo, as recordações bóiam no espaço de uma operação matemática em que o resultado és tu. porque me apareces assim?! nesses resquícios de pensamentos que não controlo?! nessa aparição fugaz que me inunda de desejo?! entro nesse carrossel de emoções sem medos nem resguardos. tenho medo que o tempo o leve. afinal, lá sou feliz. lá, compras-me nessa loja de antiguidades em que ninguém me quer, restauras-me, e colocas-me frente à janela que apanha mais sol na tua casa. não, não me vendo. não sou minha. não sou de ninguém. sou momentaneamente de quem me compra, de quem possuí o meu corpo. não tenho medo que me troques por algo de igual valor. não tenho medo que me devolvas no prazo de quinze dias ou um mês. sei o que valho. sei o que sou e não sou de ninguém. sou tua quando me possuís, quando fazemos amor. sou tua quando me levas à exaustão do prazer e me fazes suar em linhas sem parágrafos. sou tua enquanto navegas nessas marés de sonhos que me fazem delirar as entranhas. anseio o prazer. depois anseio-te a ti. serei talvez tua, se ninguém me tiver comprado antes, se me apareceres nas flutuações da vida. até lá sonho. vivo. deixo-te correr nas veias dos meus sonhos e não te peço para fechares a porta depois de entrares. fecho-a eu. chegas-me assim. nunca serei inteiramente tua. jamais eternamente de alguém. quero que fiques. quero que venças sempre o jogo nesse meu mundo dos sonhos. só lá. e apenas lá. chegas-me assim.


filipaferreira 30-03-2008

Tuesday, 11 March 2008

porquê.


quando procurei por ti já não estavas. e pensar que corri depois do trabalho para comprar os bolos e o chá de que tanto gostas. mas já me habituei a estas ausências em espaços aos quais nunca pertenceste. pertenceram-te eles, mesmo quando a tua presença não era mais do que uma esperança, um simples odor que reconstruía do que restou na minha memória do que foi em tempos o teu perfume. ponho o CD de música clássica, e enquanto o perscruto, vêem-me à memória as lembranças da tua roupa espalhada pelo chão, dos livros tão imprópriamente deixados em qualquer lugar, da toalha de banho molhada em cima da cama. todos os dias esperei por ti, e senão assim, em cada viagem de regresso a casa, rezava para poder encontrar toda esta desarrumação tão característica da tua presença. preferia tudo isto, mesmo quando me enfurecia. continuo a preferi-lo hoje. não me pertencem a mim este conjunto de silêncios que não encaixam neste espaço, de faltas de sentido na minha vida. pergunto-me hoje, se te tivesse dito tudo isto, se mudaria alguma coisa. afinal todo este vazio que carrego não é mais do que a desarrumação dos sentimentos contraditórios em que me tornei. não me questionas. eu respondo porquê. porquê hoje. porque é que ao fim de 20 anos de silêncios ensurdecedores, esperei por ti para lanchar. hoje, no trabalho, pediram-me para pintar o amor. deixei a tela em branco. porquê. menti... nunca me habituei à tua ausência. talvez por isso continue a procurar por ti neste espaço. encontro-te. porquê. porque sei que só a ti ele algum dia pertenceu.


filipaferreira 11-03-2008