não te vejo há tanto tempo que mais parece que nunca te tive. não te sinto saudades porque te recordo sempre que me apetece, tantas vezes quantas bebo um café, ou mais. é engraçado como com o passar dos anos a idade vai pesando e parece que as memórias se desvanecem, os factos ficam ténues, as cores esbatidas. mas tu continuas a dar vida a flashes que permanecem intatos. não me pergunto porquê, nem me apetece. afinal o que interessa é sentirmo-nos vivos sem aquela rigidez de quem tem que produzir diáriamente "takes" que perduram. para quê? somos partes completamente completas de partes que nos compõem. é nessa melodia que balanceamos a vida. mergulho nela todos os dias. vivo todos os dias. posso-te dizer que grito no refrão das músicas, sinto-me mais livre.
estás portanto guardado naquela prateleira de bibelôs que vamos guardando sem saber muito bem porquê, mas graças aos quais vamos tendo sempre uma história ou outra para contar. é certo que já te troquei o lugar. já te escondi dentro do móvel, atrás de outro maior que tu. mas não sei se te encontro ou se te procuro. por isso deixei-me disso. pertences ao lugar que sempre foi teu. inteiramente digno de memórias vividas de uma forma tão real que me fazem sentir mais viva que vivendo a vida realmente. adoro café. e os cafés sabem-me sempre melhor quando te bebo com eles.