Wednesday, 12 December 2007

onde estou



Não te procuro, e se te encontro, desde logo te perco.
Rasgaste o pedaço de papel onde reinventámos e desenhámos o meu sorriso. Pedaços sem caminho para onde ir, perdidos no que sobrou dessa folha A4.
Todos os dias acabo por encontrar um deles. Nos momentos em que te recordo e logo vou ao dicionário procurar o sinificado da palavra saudade. Tão pequena essa palavra. Tão grandemente sinónima do apelido que te atribuí.
Aparentemente desenhei outro. Aparentemente coloquei-o no lugar. Aparentemente servi-me dele, deixei que fizesse rasgos na minha cara, e cheguei a ensinar-lhe o caminho da felicidade. Aparentemente consegui.


filipaferreira 12-12-2007

Friday, 30 November 2007

cidade



Fora de mim, um mundo cheio de muralhas que não consigo transpor.
Tantas luzes no céu... e tantos interruptores longe do meu alcance.


Dentro dele, conjuntos de fronteiras que não se atravessam,
quilómetros de pensamentos que não se ultrapassam.
Países que não são mais do que o resumo de passagens,
que nunca chegámos a visitar.
Mas estão e são. Permanecem.


Do particular nasce a certeza. A certeza de existir, de querer.
As pontes sobre o rio ligam-me a ti, nessa cidade em que não te conheci.
As suas ruas estreitas aconchegam-me no caminho,
os candeeiros que não a iluminam engrandecem a luz tua em mim,
e o seu silêncio à noite aumenta o volume da tua voz.


Fora de mim, o mundo é o mundo. Só.


Dentro de mim, o país que visito a toda a hora.
Onde a esperança se encontra em todos os cantos,
e os gestos se tornam realidade.


E lá tu existes. Lá, ganhas todas as batalhas,
conheces todos os caminhos, descobres todos os segredos,
guardas ao promenor todas as passagens do tempo.


Lá, nessa cidade que ninguém habita a não seres tu,
as ruas estão desertas, e muitos dos caminhos estão ainda por pavimentar...


mas o teu nome está escrito por toda a parte...


No lá que é aqui... bem dentro de mim.



29-11-2007 filipaferreira

Thursday, 22 November 2007

onde

Se o rio cái tinto o vinho embriaga-se no subsolo de um beijo.

Fazemos os pilares, regamos as flores. Fechamos as portas, trancamo-nos lá dentro. Tapamos os fins, sustemos a respiração e os olhares sentem-se sem se verem.

A maresia está cá dentro, juntamente com os passeios cheios de folhas estaladiças no outono. Se o vento foge, se o tempo se esgota em degraus movediços, chega até mim o agudizar de uma lembrança sem momento. Os momentos, esses, são o bem me quer, mal me quer de uma contagem sem fim.

Se te procurar, se te encontrar e roubar ao mundo, foges comigo?!

Não quero respostas vagas. Não quero sorrisos que não rasguem tecidos nenhuns. Não preciso de poemas que rimem, nem de rendilhados de palavras. Não preciso de ti sem o sobrenome amor.

Deixei de fazer contas de cabeça quando pensei em apaixonar-me pela mísera ficção em mim. Desquadriculei as folhas e abri-lhes o significado ao meio. As minhas letras não cabem. As tuas não fluem.

Não sabes o meu nome de cor.


filipaferreira 22-11-2007

Tuesday, 20 November 2007

Gosto-te



.................................princezinha............................................

Tuesday, 6 November 2007

saudade



Não sei onde te perdi... se nos resguardos de um sonho inacabado, se nas escadarias de pedra prateada em que a minha mão se desprendeu da tua, se no calor de um abraço que terás julgado frio demais.


Olho para este mar frio de Inverno, e num ápice nunca nada me pareceu tão perfeito: os silêncios que os nossos olhares transcreviam em cumplicidade, a mímica de gestos que sempre adivinhámos um no outro, ou o ranger de dentes que nos avivava a audição...


Uma perfeição de claves de sol que juntos escrevemos na pauta, de "lás" que desenhámos no seu contexto e de "dós" que aprisionámos no seu fim. Fomos tudo isso, e isso foi o que nada fomos. Um conjunto de letras feitas sem sentido mas que encaixaram perfeitamente nas suas melodias. Um conjunto de músicas que contam grandes histórias e compõem esse CD recordável que fomos... esse que ainda ouço hoje nos ecos de mim... esse que ficou esquecido na prateleira de uma estante e que nunca chegámos a editar.


Se hoje o oiço, é porque foi lá que te encontrei, foi lá que nos perdemos, e é lá que te hei-de encontrar sempre... nessa faixa escondida de uma história que me encanta a cada vez que a recordo, nesse caminho do qual nos desviámos quem sabe, para nunca mais lá voltarmos. E se lá te perdi, é lá que te vou aprisionar: nesse pequeno sonho inacabado... dentro desse grande sonho que é a minha vida!



filipaferreira 06-11-2007

Monday, 29 October 2007

és-me

Fecho os olhos e vejo-te de perfil. Sei-o de cor. A dimensão do olhar que transportas nas linhas do tempo que deixas por escrever, a longitude que ele alcança, os rastos que vai deixando pelo caminho.

Perscruto-o e desvendo-o aos bocadinhos. Uma soma de traços alinhados em linhas curvas quem me embriagam. Um encaracolar de palavras balbuciadas, de gestos ferozes e indomáveis. Mas isto sou eu a ver-te de perfil, não a olhar-te nos olhos.

Esses jactos direccionados de água que me submergem se me atingem, e me aprisionam nessa caixa de lápis de côr onde somos um só. Mas não tenho medo que entres nas profundidades de mim. Não saberias mais de mim, não tenho mais segredos por desvendar, não sou mais que aquilo que já sabes.

Já te conduzi pelos trilhos mais profundos de mim, e dei-te todas as batalhas a ganhar. Revelei-te o nome de todos os ingredientes para me cozinhares. Ensinei-te os rabiscos coloridos que me formam, para me poderes desenhar também. Pinta, desenha... desenha até não poderes mais.

Não preciso de tudo sem ti... preciso de ti para ser tudo. Só quero que sejas, que estejas e que vivas. Que construas comigo o sonho de um livro cheio de páginas escritas, de próximos capítulos, de "para sempres" imortalizados. Subir degrau a degrau a realidade de gestos cúmplices, de olhares que se tocam, de juras cumpridas, de sentimentos conquistados... com as tuas mãos bem presas às minhas...


filipaferreira 29-10-2007

Saturday, 20 October 2007

eternamente


"... cresci a pensar que amava os frutos, o mar, o céu, a chuva!!!!

Andei a deriva à espera que pudesse ser recompensada por ter aprendido a amá-los. Mas nem
sempre por tudo na vida se recebe recompensa... o puro amor jamais será recompensado.

Por vezes é necessário que a árvore deixe de dar frutos, que sejamos privados de olhar o mar, o céu, de sentir a chuva, para vermos o quão insignificantes se tornam, à luz de quando somos privados de amar.

Nessas alturas a dor e o arrependimento mostram-nos o caminho da felicidade, aquele que procuramos incansávelmente por toda a parte, toda a vida.

Foi então que encontrei o meu caminho e compreendi que era feliz só por te amar. Mas rápidamente percebi que jamais seria recompensada, porque o puro amor reside em ti.

Aquele que se apodera de nós, e é o único a viver ETERNAMENTE..."

escrito algures em 2001 filipaferreira

Thursday, 11 October 2007

refrão

Caminho sem saber caminhar,
e ao saber,
talvez nao caminhasse assim.
...................................................................
Procuro, procurando, querendo encontrar,
o sonho que é a vida onde me passeio,
o banco que é onde por ela espero,
o interruptor que é a sombra onde me escondo,
o segredo de acender-lhe a luz dentro de mim.
................................................................................
Acordo às vezes sem abrir os olhos,
como chocolates, junto-lhes as pratas,
visto-as a rigor, segredam borboletas,
sei-lhes o cheiro de cor...
mas não encontro a chave,
nem a resposta,
nem o som,
nem eu...
nem a mim...
.......................................................................................
Mas danço dentro dessas quadrículas apertadas,
soam sinetas, múrmurios (sou eu a falar?!),
e procuro a saída, o destino, o fado,
o refrão deste poema sem sentido,
o fim dos círculos desfigurados que o meu corpo desenha.
...............................................................................
E serei eu este, aquele ou o outro?
o piano acariciado sem emitir sons,
e se procurasse emitiria o caminho,
ou caminhava como eu?!...
sem saber... E caminharia assim?!
.................................................................
Mas entre as claves de sol, as teclas sonantes,
os gritos ouvidos, as terras perdidas,
as músicas cantadas entoando tormento,
os beijos roubados, as guerras travadas...
há um traço, uma curva, uma roda, ou até um ponto.
.....................................................................................
um ponto... um ponto... dois pontos... ou um ponto?!
..............................................................
Não!!!! um CAMINHO!
...........................................................................................................
filipaferreira 11-10-07

Wednesday, 3 October 2007

Há dias assim


..................................................Há alturas em que os quadrados parecem bOlas e um cubo de gelo me bloqueia o pensamento. o pensamento. ............................................................................................. Existo numa fotografia guardada numa moldura velhA, colada com fita cola para não se perder. De lá espreito o mundo que se move a uma velocidade alucinAnte, as pessoas que perdem o tempo numa caminhada apressada, e não voltam atrás para o apanharem. Custo a conseguir aperceber-me da temperatura a que a minha expressão congelou e os meus movimentos se descoordenaram com a vida. Lá, sou mais impressão que ReAlidAde. ........................................................
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::E sinto-me assim, com mEdO de pisar o caminho que tenho à minha frente. Com medo que ele não exista ou que eu não exista nele. ...........................................
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::Mas espero, nesse banco de jardim que pintei da cor que gostava que existisse em mim. Fora dele, a minha mão pouco alcança, o meu sonho fica em pause, e o mundo é o resultado de uma soma de suposições e pontos de interrogação.
........................................................................................................ E resumo-me a esse conjunto de lusco-fuscos pErdiDos na noite. Dentro deles, sucessões de esperas, mais demoradas, meio vivas meio mortas, como quem está numa paragem de autocarro a aguardar a sua vinda em dias de greve.
...................................................................................................... O mundo lá fora avança, e dentro do meu tudo parado. A estagnação dos sorrisos, do movimento dos pássaros, a imobilidade do vento, das gotas de chuva a cair ..............................................................

.........................................................................................E se acordo, se caminho, se desisto sem ter tentado... um banco... eu. Volto sempre ao mesmo ponto de partida: sou lembrança dentro de uma moldura que já não se torna real no olhar de ninguém. E isso sou eu, uma imagem de um pensamento muito pouco lúcido, de uma VisÃo meio turva, meio perdida...

filipaferreira 03-12-2007

Friday, 21 September 2007

ansiedade


Não existe a palavra "cor" no dicionário em que me encontro. Ao invés, páginas de espera, repetição de sons, frases que não se formam devido à estagnação do pensamento. Parar. Fazê-lo contra-vontade pode ser criticável. Compreensível para mim, porque os segundos avançam no relógio da vida, e eu... aqui... parada...


Mas nunca ninguém disse que só é possível caminhar com as pernas, pois não?!
filipaferreira 21-09-2007

Tuesday, 4 September 2007

Idiopatia do querer



Caminho a passos largos com a idiopatia do querer.


Na sombra de um passo existe o ganhar folêgo para outro, os pulmões colados às costelas, o coração a bater... páro!


Revejo os estilhaços de mim no espelho de uma poça de água que ficou na sombra do tempo. Olho para mim e não me reconheço. Para lá de um sorriso uma expressão congelada pelos infortúnios da vida. Não fui a peça original dos pedaços partidos dentro de mim, nem sou o seu conjunto depois de reorganizados. Sobram peças mas continuam a haver buracos por preencher.


Mas quero, continuo a querer.


Pinto em tela o espaço de um lugar preenchido por sofás, maples, candeeiros, jornais. Estou sentada no sofá vermelho do canto. Passo a mão pelo lugar a meu lado, e ainda se encontra quente, como se tivesses estado lá há tão pouco tempo, quanto os poucos minutos que conto sem conseguir pensar em ti. E a realidade é que nunca lá estiveste, mas ainda assim desenho-te na perfeição e pinto a tua roupa com as tuas cores preferidas. Ainda não me ensinaram a técnica para pintar os cheiros, mas sabendo-a, pintaria na perfeição o odor teu, que sinto no que resta deste cenário que invento.


E nesse lugar em que te aprisionaste, não há espaço para uma respiração contra o meu peito, uma mão pelos meus cabelos, uma palavra no meu ouvido. Não me procuras. Não invento mais...
Na realidade nunca estiveste a meu lado. Talvez até eu nunca lá tenha estado, sentada nesse sofá vermelho em que gostava de te ter tido ao meu lado. Abraçar-te. E mesmo se te pintasse a meu lado nesta tela que invento, existiria com certeza uma parede de cimento entre nós, mesmo que estivessemos lado a lado, nesse mesmo sofá. Uma parede que não construí, uma barreira que não sou eu. O limite entre o conjunto desorganizado que sou, os estilhaços em que me tornei, e a incompletude da sua reorganização.


E nessa galeria de arte em que me passeio, acordo para a realidade da cena que me acompanha. Um quadro que sou obrigada a deixar para trás, uma tela em que nunca estive, e muito menos em que te tive a meu lado, cores que se apagaram na vida que transporto comigo. Mas como queria ter ficado lá, como queria que nos tivessem visto lá... um querer tão forte quanto a realidade que invento de lá ter estado contigo.


Mas quero, quero muito, e hei-de continuar a querer!

filipaferreira 04-09-2007



dedido este post aos que o ansearam, como eu...


Tuesday, 31 July 2007

tem dias...


Tem dias que não alcanço a ponta do nariz com a ponta dos dedos,
e o caminho de casa parece longe demais.

Tem dias que o mundo avança e eu corro atrás dele,
logo tropeço, mas continuo a correr atrás dele.
tem dias que não saio do mesmo sítio e caio,
parecendo não mais me conseguir levantar.

Tem dias que os dias são grandes,
e eu adormeço nas horas do tempo,
ou é o tempo que adormece em mim nas horas da vida,
tem dias...

Tem dias que penso que mais pensar me traz o sonho,
e sonho acordada com o mundo que me parece fantástico,
tem dias que não acordo e não sonho,
ou sou eu que não o consigo sentir?!

Tem dias que faço viagens e trago lembranças,
encontro fotografias minhas de sítios onde não estive,
tem dias em que sou vazio, página rasgada,
e só o silêncio me inunda a alma.

Tem dias que o chão me foge debaixo dos pés,
ou que fujo debaixo dos pés dele, não sei...
tem dias que chego a voar para longe de tudo o que me foge,
tem dias que volto…

Tem dias em que consigo lamber o cotovelo com a língua…
ou não consigo, alguém consegue?!
Tem dias em que chego a pensar que sim,
dias simples em que adormeço feliz,
por fechar os olhos e te ter a meu lado…


filipaferreira 31-07-07

Sunday, 24 June 2007

Para lá do silêncio

(Melides, 2007)

No silêncio de um suspiro que deixo para depois, olho atentamente para esta tela a óleo que temos vindo a pincelar dentro de nós.

Os múrmurios do vento trazem à lembrança tudo o que sem estar escrito, ficou gravado em mim.

Mas encontro-te aqui, onde o sol se põe muito antes de toda a luz em mim se apagar. Vejo-te aqui, neste recanto cheio de caroços de cerejas amontoados, que jogámos não importa para onde, desde que juntos. E anseio-te com a mesma força com que consigo abrir os olhos e vislumbrar-te, mesmo quando não estás.

Sinto-te, guardo-te, como quem guarda o maior tesouro da vida. Deixo a liberdade de ti viver nesse jardim em que nasceste, mas roubo-te um pedaço que planto no jardim que é o meu. E lá passas de carne crua a alma viva... Lá, sinto-te sem te tocar, e todos os odores se resumem a esse perfume tão teu, que já é meu também.

E como o meu olhar fica a preto e branco quando não estás e as músicas são substituídas por sons indecifráveis... que faz lembrar o agudizar de um silencio que se repete sem se ouvir a ele próprio.

Então sento-me e espero por ti. Aqui, onde não há tempo, paragens de autocarro e bilhetes para comprar. Porque sei que para lá do sol, está o nosso caminho.

Por isso, sinto-te, cheiro-te, guardo-te ainda mais dentro de mim.
Abro os olhos com a mesma força com que te desejo.. e no silêncio de um olhar, tu levas-me... e eu levo-te comigo.


filipaferreira 19-07-07

eco



Queria ouvir de ti o que não disseste, o que se perdeu...


Ouço a letra da música que me cantaste em surdina, e vou bebendo em goles este chá de ervas que me envenena aos bocadinhos.
Sou um corpo sem alma que se escuta, sem ouvir nada no eco de si.


As minhas mãos vazias deixam ainda mais árido este deserto em que me tornei. Pegam na caneta e não antevêem nenhum parágrafo, nenhuma palavra... com tanto que tenho para dizer.

Apetece-me saltar deste barco naufragado neste azul imenso, e esperar que alguém me salve.
Recordar todos os momentos e deixar que o meu livro de memórias seja esborratado por uma chávena de chá que lhe derramem em cima, sem que tenha que ser eu a bebê-lo... Dançarei esta dança, sim, desde que sejas tu a pedir a minha mão da próxima vez... navegarei nos teus braços, juro, como se se tratasse da última dança da minha vida, e prometo não me atirar jamais deste azul imenso para o barco naufragado em que estou.

Mas até lá, encontro-me sentada à beira rio a ver-me passar. Tento abraçar o tempo e recuperar os risos, os momentos, mas o teu perfume já não é nada mais senão uma composição de fragrâncias que decorei mas que já não sei reunir em conjunto... e eu um fragmento de ti. Puxo até mim a lembrança, como se te apertasse junto ao meu peito, mas no desfazer de um abraço encontro-me novamente a mim.

Leva-me o medo de viver da mesma forma que levaste o de morrer quando voaste para longe!.. para um longe tão perto que ter-te aqui é quase uma constante.

Já fui dona de castelos, encabecei frentes de batalha, lutei contra monstros terríveis, venci mares e tempestades, em sonhos e por ti. Faria tudo de novo.
Hoje sou um corpo sem alma sem ecos, que apenas vê a vida passar no lado mais profundo de si...


filipa ferreira 24-06-2007

Thursday, 7 June 2007

Preciso sonhar



Preciso sonhar…


Ir ao fundo do saco buscar a boneca de trapos,
(cantarolar-te uns ais ao ouvido
Rodopiar, rodopiar, e mais rodopiar
),
e trazer também a capacidade de sonhar
que aparecia sempre que brincava com ela.

Correr pelos campos, cair neles, e acordar cansada,
(cansada de fugir dos tempos em que já não sonho),
entontecer de dançar contigo, sozinha, com os outros,
entontecer, entontecer e mais entontecer,
rodopiar, entontecer e mais rodopiar.
(Preciso sonhar…)
Abrir-te os braços, assustar-me com o sorriso
que me perseguia quando ainda sonhava
com a loucura dos momentos que o amanhã me podia trazer…
Como quem sonha vir a sonhar grandemente um dia.
(E o que é o sonho senão um rodopio de esperanças
que nos entontece até nos deixarmos cair…
).
Sentir os passos de magia entre as dunas,
ver aparecer entre a bruma o por do sol ao amanhecer,
(Preciso sonhar!!!!)
apagar as pegadas deixadas na areia, guardá-las comigo,
e voltar a colocá-las no caminho da luz…
e também pode ser dos cheiros, dos abraços, dos beijinhos
(ai os beijinhos!),
das cores, do esquecimento que significa o ponto final que se segue
(não me apeteceu, porque os pontos finais não nos deixam sonhar… )
Acordar, espreguiçar-me depois de um longo sonho
(que não conto!),
ver a luz do dia, olhar para o céu e espreitar o mar…
rodopiar, rodopiar e mais rodopiar,
entontecer, entontecer e mais entontecer
até cair cansada, exasperada, feliz,
só por poder sonhar outra vez… e mais uma vez outra vez…

Preciso sonhar…
filipaferreira 02-02-2007

Wednesday, 30 May 2007

Pés na areia



Porque há coisas simples que nos fazem recordar coisas que viajam sempre connosco por toda a parte, toda a vida...

E que tudo saiba sempre assim tão bem... como pés na areia...

Saturday, 26 May 2007

Qual é o tamanho da lua?!


Danço contigo ao sabor do vento uma música que me embala a alma.


O mundo deixa de existir,a minha vida sobe ao céu numa bola de sabão, e eu fico aqui contigo... onde as palavras personificam sentimentos que parecem intemporais num tempo que parece estar parado.


Como pode o tempo parar quando eu viajo dentro de mim a uma velocidade alucinante neste caminho que é também o teu?! E estar neste banho maria é tão estontiante, que o tempo estar parado ou não é quase o mesmo.


Sabes, quem dá valor às coisas simples da vida, acredita nestas coisas. Que os "para sempre" da vida são feitos de brilhos partilhados no olhar, de abraços que se desejam e são dados sem termos que pedir, da intensidade com que se vivem os momentos em que o tempo parece parar, da felicidade de terem o mesmo sentido as pegadas que deixamos gravadas na areia da praia.


E aqui estou eu, no meio destes embalos que a verdade do teu "eu" em mim me faz ter. Por isso eu danço, danço, e mais dançar me faz escutar o eco desta música através de tempos que ainda não vivi. A certeza que tenho?! Pô-la em repeat sempre até que o mar se canse de correr para terra.


Se gosto de ti?!

............................... do tamanho da lua...
.
.
filipaferreira 26-05-2007

Saturday, 5 May 2007

Ventos



Beijo os cantos de um lume apagado, e sinto-me eu meia fria meia bamba. Um bamboleio de vai-véns num corpo morto que fazem ouvir em repeat o refrão desta música que me adormece.

E tudo parece de novo tão distante. A distância de uma mão que não se agarra, de um corpo que caí. A distância de uma imagem lá ao longe, até ela meia turva, meia perdida. E os sentidos ficam secos de vida de um momento para o outro. Uma secura que me consome em lume brando sem que nenhuma onda de vento lhe consiga penetrar.

Mas os ventos também se agitam, também nos agitam. Criam luzes no escuro de uma madrugada sombria, acompanhadas de assobios lentos de notas de música que parecemos reconhecer de qualquer lado. Mas quando tentamos agarrar a imagem que está para lá do denso nevoeiro da nossa alma, é o vento fazer-nos rodopiar numa dança estonteante de sentidos perdidos no teatro da vida.

E ali estou eu, no meio de mim e de um nevoeiro que me faz bambolear neste vai-vém de antagonismos catastróficos. Que me faz temer a parte de mim que anseia que a velocidade dos ventos se intensifiquem, para ficar de novo mais perto da imagem que está para lá da bruma de cores cinzentas.

Mas tudo é de repente tão desfocado como concreto. A viagem de idas e voltas desesperadas repete-se, sem ter comprado pacotes de bilhetes em promoção, e eu não pareço nada mais do que um boneco de trapos que vai envelhecendo à medida que os ventos vão e vêm. E nada fica retido em mim destes quilómetros que faço sem sair do mesmo lugar. Apenas uma cabeça aos turbilhões, um corpo que espera uma ambulância que não chega, uma vida presa por um fio que nem se enrola nem desprende.

E os bamboleios vão e vêm, o meu corpo fica e vai... A distância viajou a anos-luz para longe de mim e eu fiz viagem com ela. E nada nunca me pareceu tão distante... a distância inatingível de uma alma que está longe demais para que eu a consiga alcançar... e com ela bamboleio eu, num vai-vém que vai mas não volta...


filipaferreira 05-05-2007

Sunday, 29 April 2007

Bocadinho de vida



Passa o outro lado do ser e vê se existes, dentro do pequeno ser que julgas ser grande, dentro da grandeza que é a pequenez da tua incultivada alma. Procura a luz da incompletude que é na vida o mais simples que há em ti e nos outros. Alcança o pó que só tu és na terra, e dá-te a cada sopro de vida que for também teu, ou que ames como se fosse. Usa as palavras quantas vezes quiseres até reconheceres que o silêncio já diz tanto ou mais que elas. E quando conseguires um bocadinho disto tudo com o bocadinho de nada que és… podes começar a viver!
Porque não há vida que caiba na vida sem nada disto!
filipaferreira 29-12-2006

Wednesday, 18 April 2007

curvas


Assim me deixas, nestes abrigos ao inevitável. Numa casa encerrada a sete chaves, sem janelas, sem nada mais do que um pouco do resto de ar que escolhi para respirar. Uma respiração cortada em cores, como um arco-íris, que fizeste questão de separar em rasgões sem nexo nem sentido, sem corte nem medida.


Mas as curvas deste caminho não me embriagam. A embriaguez, essa sim, existiu quando tu ainda existias em mim. Quando os sorrisos pareciam não terminar e as pernas tremiam. Faz-me explodir os sentidos, sim, a ideia de ter que percorrê-lo sem te ter a meu lado. E no vagueio de uma tontura inebriante acordo lúcida de um sonho que nunca cheguei a ter. Uma lucidez que me estupidifica até à última ponta de cabelo e me corta o sorriso em quatro. As quatro linhas que traças-te, que pensei serem de um caminho com volta. Mas a seguir a uma volta veio outra, e a seguir a elas uma sucessão de voltas que me fizeram perder a capacidade de reorganizar esses pedaços de boca rasgada.


E por isso o meu conjunto desorganizado resume-se a um silêncio ensurdecedor de uma alma embriagada. Uma embriaguez que transformava sempre as curvas em caminhos concretos, porque eras tu a apontar-me a direcção, mas que hoje nada mais é que uma alma lúcida em ressaca. Por isso as curvas sucedem-se, e o meu percurso não se parece com nada mais, senão com vastidões de campos ameaçados por travagens bruscas de um ser partido em dois, em três, em tantos quanto o número de chaves com que me encerras-te neste céu sem sol.

Mas este caminho que percorro já não me embriaga mais do que a lucidez que me deixaste como recordação. E quem dera que eu não a visse a meu lado, aqui, nesta casa em que me vou separando em pedaços... pedaços meus que já não cabem em mim. E são eles, os pedaços rasgados de caminhos percorridos a teu lado, de sorrisos cortados, que quero aqui trancar, esses sim, a sete chaves. Sair deste buraco sem fundo, sem cor, e voltar a respirar o resultado de uma subtracção entre o ar do mundo e o ar que é o teu... e então, conseguir escapar à tortura de curvas sem volta deste meu caminho que existe porque tu já não existes nele. Porque não me embriaga a ideia de ter que o percorrer... mas deixa-me sem rumo a realidade concreta de ter que percorrê-lo sem ti...


filipaferreira 18-04-2007

Saturday, 7 April 2007

Ponteiros de relógio


Passeiam loucos os ponteiros do relógio, como multidões que correm incessantemente em caminhos que se cruzam. Esqueceram-se dos limites do tempo… todos se esqueceram dos limites do tempo...

E, de repente, tudo na vida se resume a horas, minutos, segundos. As horas transformadas em dias, meses, anos, que demoramos para construir a eternidade do que se procura toda a vida, os segundos que demoramos a destruí-las.

Mas os caminhos percorrem-se passo a passo, ao ritmo de qualquer relógio. O relógio que cavalga a uma velocidade vertiginosa quando estamos felizes, que esquecemos quando perdemos a noção do tempo, que pára quando nos rodeamos de sentimentos intempestivos que nos afundam a alma.

Mas as tempestades sucedem-se, os muros da vida vão aumentando e, de repente, lá estamos nós suspensos num ponteiro de qualquer relógio a tentar olhar para o mundo que fica para lá de nós. Aquele mundo que nos persegue enquanto tentamos escapar às rasteiras que a vida nos impõe. E sem nos apercebermos, estamos rodeados de números que se repetem sem que nada mais mude, de movimentos circulares de ponteiros descoordenados que nos enlouquecem.

E o pouco tempo que se tem nunca é aquele que usa enquanto os segundos avançam depressa, mas aquele que se perde quando deixamos que a vida pare em nós. Por isso, o tempo que temos que aproveitar é aquele imediatamente entre o segundo que já passou e o outro que vem a chegar. Tudo o resto são ponteiros do relógio mortos por ultrapassarem números numa corrida incessante para fugirem de si próprios…

filipaferreira 07-04-07

Tuesday, 27 March 2007

rectas paralelas


Os espaços mortos que me deixas são uma soma de rectas paralelas que nunca se chegam a cruzar. São elas que constroem o túnel através do qual vou caminhando, sem saber muito bem para onde e até quando, sem conseguir antever o seu fim.

Mas cá estou eu, rodeada de nadas infinitamente concretos, de falas profundamente silenciosas, de cadeiras vazias e esperas demoradas. Bebo o meu café de manhã, e o nível desse líquido opaco contínua imóvel no copo que é o teu… a tua cadeira vazia… a tua ausência presente. O telefone toca, ouço a tua voz quando atendo, mas não tenho registo de chamadas tuas.

E sem te ter a meu lado, os dias vão passando, enquanto por ti espero nessa esplanada de quiosque onde te vejo sempre… esperas demoradas… e na demora de um sinal teu, a cadeira a meu lado continua desocupada… e quem dera que o vazio que deixas em mim fosse só do tamanho desse lugar sem ninguém, a que já me habituei.

Mas todos esses “teus” continuam presentes em mim sem que ninguém os consiga alcançar. São tesouros perdidos no fundo do mar, que nem eu sei se de lá sairão algum dia. Sou eu, perdida no tempo do silêncio.

E é tudo tão vago como concreto, fugaz como eterno… uma fugacidade de aparições, conversas, trocas de calor quando as peles se tocam, por entre os espaços mortos, tão concretos, de rectas paralelas que nunca se chegam a cruzar…


filipaferreira 27-03-07

Monday, 19 March 2007

Banco de jardim


Num fogo desatado de emoções escrevo as letras das canções que deixaste em mim, como se a sua melodia fosse ecoar cá dentro até eu perder os sentidos. Os espaços deixaram de ser físicos, os sons audíveis, e o mundo já não me dá a mão. E de novo o que se sente e não se vê, me obriga a acreditar verdadeiramente nas coisas que conseguimos palpar, e não no barulho do mar, no assobio de um pássaro que não se vê.

Porque o que parece existir num dia, é muitas vezes o acordar de um sonho que se deixa a meio numa noite de tempestade. São histórias que sabemos de cor, mas que reflectem páginas em branco do nosso livro, como se nunca tivessem existido. E acreditar nelas parece utópico. Uma utopia com degraus e patamares que se percorrem vezes sem conta sem nunca sairmos do mesmo sítio.

Olho para o mundo lá fora, e os ritmos alucinados das vidas afogadas, dos tropeções fugazes, fazem antever bancos de jardim onde, Inverno após Inverno, só o sol se lá senta. E como tudo está tão distante e os olhares não se cruzam. Como os sentidos não se sentem e os passos não se dão, e as pessoas falam sem se ouvirem.

E de novo acredito nas coisas que temos como certas... num lugar a beira mar onde podemos sempre voltar, num copo que cai ao chão e se estilhaça, no tempo que não volta atrás, no ponto final da vida que nos espera.

E é num fogo agarrado de emoções que percebo tudo isto e permaneço imóvel, enquanto transformo os ecos das melodias que deixaste em mim em canções audíveis a todo o mundo. Esse mundo que me vai passando ao lado em ritmos alucinantes que se constroem sem se poder voltar atrás. Esse mundo que me vê sem me ouvir, e me olha sem se cruzar comigo. Esse mundo que deixo enquanto sonho, e que vejo passar por mim sem lhe conseguir tocar... eu, sentada num banco de jardim...


filipaferreira 19-03-2007

Friday, 16 March 2007

Guardar


Guardar…

Guardar as imagens que me vêm de ti
em explosões de beijos repescados
loucuras escondidas, corridas ganhas,
num filme que vimos…

As histórias que lemos, as canções que ouvimos,
houve um dia escuro em que cheguei a esquecer,
que há coisas que a vida grava na pedra que somos,
e que nós guardamos no sinónimo de eterno.

E o que se guarda é sempre menor do que o que se ganha,
maior do que o que se perde, e igual ao que se teve:
nunca se perde nada do que nunca se chegou a ganhar,
nem se guardam momentos que não tenham ficado primeiro gravados no filme que fomos.

Mas na loucura de lembrar
o que se guarda no sufoco de lutas perdidas,
esquecemos o que ficou para trás:
o porquê de um filme que pusemos na pausa,
que não vimos nem fomos,
e não lembrámos de guardar
na miragem do depois…


Guardar…
entontecer de tanto lembrar o que guardamos
no pedaço de sentimentos confusos que somos…
Como entonteço quando me lembro
do eterno que gravei em mim
com as imagens que me vêm de ti…


E como volto à realidade quando percebo
que guardei também a lembrança
de um filme que deixámos esquecido,
e guardámos para depois…


filipaferreira 16-03-2007

Tuesday, 27 February 2007

Ilusao

Às vezes a vida mostra-nos da forma mais difícil o caminho da compreensão.

Quando tudo parece já perdido, ouvem-se os sons de longe, as cores organizam-se em conjuntos e ganham forma, e o mar entoa o poema da esperança.

Acreditar nunca me pareceu tão difícil.

Como é doloroso fechar os olhos para o raiar do sol, e viver na escuridão momentos que nunca se agarram com a força da realidade. E fica tão fácil acreditar, como tão difícil torná-los parte da nossa vida.

Porque os sorrisos, a bravura das palavras, a partilha das canções, o cheiro dos momentos, cabem na dimensão dos sonhos e não na plenitude da vida. E de novo tudo se esfuma. As histórias terminam no palco, os panos descem, e enquanto uns se recompõem dos momentos vividos, outros aplaudem. E há momentos na vida que não passam disso mesmo: recordações de histórias de filmes ou espectáculos assistidos. Porque nada do que é vivido com veracidade se fica apenas pela dimensão dos sonhos ou pela bravura das memórias.

Mas até para saber compreender a mensagem dos sonhos ou das memórias é preciso viver a vida livremente. Às vezes basta contar ao mar momentos que nunca tiveram vida, e fazê-lo acreditar tão fortemente como nós acreditámos um dia. Porque não há maior prazer na vida que acreditar na liberdade dos sentimentos.

E de novo tudo se esfuma, e para sempre a vontade de fazer com que os sonhos se tornem realidade, mas nunca a bênção de acreditar e de lutarmos pela liberdade de sermos felizes. Porque às vezes, na razão da escuridão nasce a luz de continuarmos a acreditar nas coisas simples da vida, mas ainda assim as mais importantes, e que essas sim serão reais e verdadeiras para sempre…


filipaferreira 29-10-2006

Friday, 16 February 2007

Olhar para trás


Olho para trás, para a enumeração das coisas que não dissemos, das que morreram ou que nem chegaram a nascer, e tudo me parece mais claro que as pedras no fundo de um rio, por baixo de um espelho de águas límpidas que plantámos.

Mas estão todos lá, os nadas que imortalizámos em sucessões de abrigos ao inevitável, que sempre foi o silêncio… o silêncio da água turva que alimentámos, o silêncio das teias de aranha que não limpámos, o silêncio das músicas que não ouvimos, o silêncio do olhar… quando ainda nos olhávamos.

E só na enumeração das pedras que deixámos componho a história que nos passou ao lado num atropelo de imprudências mal escritas. Hoje, nem elas me permitem recuperar o fôlego de uma corrida que dei, sim, mas nunca em prol da catadupa de degraus que vejo agora, quando olho para trás.

Limpo o pó do baú de recordações, e sei que lá dentro estão os capítulos de vezes em que víamos o dia nascer, e mesmo assim não compreendíamos porque não vemos uma formiga quando ela está em cima da ponta do nosso nariz. Ainda assim, abro-o e fico com a certeza que há coisas que nem o sonho é capaz de mudar, pedras que nunca mais se conseguem tirar do fundo de um rio, teias de aranha que hão-de voltar sempre a aparecer no canto do inimaginável, e músicas que havemos de ouvir sempre no lado mais silencioso de nós.

Porque há muros que nunca se transpõem com a simples fugacidade de querer muito, e vidas que não acabam com a vírgula que é morrer. E entre empurrões e tropeções, solidões exasperadas e realidades frustradas, eu olho para trás e volto a enumerar as pedras por baixo do espelho de água límpida, que sou eu... mas no abraço da enumeração dos nós que a vida nos dá, está a chave de caminhar sem ter medo de olhar para trás…


filipaferreira 16-02-2007

Friday, 9 February 2007

frase solta





Viver é sempre voltar ao ponto de partida de nós . . .


Monday, 29 January 2007

pensamento

Os espaços entre os nadas dão abrigo aos dias de tempestade, que não são nada mais que um interlúdio do pensamento.

Tento alcançar, em vão, a melodia da música que faz vibrar os meus sentidos, a beleza das cores do arco-íris. E há momentos que não se esquecem, palavras que se repetem por anos, como se fossem o impasse repetitivo de uma música num disco riscado… repetições e mais repetições…

E todos os dias um sorriso desaparece… nasce o vazio. Todos os dias os corpos se afastam depois de um abraço que nunca foi dado, e uma parte do brilho do olhar se transforma numa cicatriz debaixo da roupa. Fica o vazio como lembrança… o vazio do rolar das lágrimas, do desespero, da raiva, da desilusão, da saudade… do nada…

E mais uma vez me pergunto porque há páginas na história da nossa vida nas quais a tinta da nossa caneta não tem a capacidade de penetrar, a nossa borracha não consegue exercer o seu efeito… porque é impossível, tão simplesmente, rasgá-las?!

Recordo tudo o que se foi embora para dar lugar à enclausura da impotência… Era o que eu queria com todas as minhas forças… rasgar-te da minha história, e jogar as folhas amachucadas que nela foste à roleta russa da vida… abandonar este jogo que não pedi para jogar, e correr sem olhar para trás… nunca mais olhar para trás…

filipaferreira 29-01-2007

Saturday, 20 January 2007

Azul


Pinto o emaranhado de cores que há no tudo e no nada, como se o pincel fosse a ponta dos meus dedos… e eu entrelaço-o com a mesma força com que te entrelaço no meu pensamento.

A imaginação de um céu azul, estrelado como a povoação de buscas incessantes ao infinito do imaterial, fazem perder a capacidade de sonhar com os curtos raios de luz que de vez em vez nos invadem a alma.

Mas fechando os olhos, perco a frieza do pensamento e deixo-me levar pela bravura do vento, que faz dançar a um ritmo descoordenado as pontas dos meus cabelos… e o mundo parece outro.

Tudo roda, o tempo urge! O sapateado das danças aguçadas pelo brilho dos movimentos rápidos, o cintilar de um beijo num olhar negro, uma cambalhota estonteante no embalar das ondas, os passos que se ouvem nos ecos das memórias… as pegadas que se deixam nos caminhos das histórias.

Tudo desaparece, tudo se transforma… o vento não pára, o mundo rodopia no assobio de um pássaro, os sonhos caem de uma varanda que balança, o céu continua azul… nada se transformou, nada desapareceu, nada existiu…

Aperto uma última vez o pincel com a ponta dos meus dedos no entrelaço de um momento tão efémero, como tantos outros em que nos apercebemos que já vamos tarde para contemplar as estrelas cadentes, de tão fugaz que é a sua aparição nos céus… mas ainda assim, lanço a minha mão para as tentar alcançar e volto a fechá-la, como quem aperta um punhado de areia…
trago-a esperançosamente até ao alcance do meu olhar...
vazia...


filipaferreira 19-01-2007

Saturday, 13 January 2007

escuro

Às vezes encontro no escuro uma nova forma de viver... nessas alturas é ele a mostrar-me o caminho do pensamento.

O frio invade-me o corpo como se me possuísse, e se apoderasse da minha mente, e eu deixo de ser. . .

As fotografias já não fazem sentido, os filmes já não contam a minha história. . . emprestei um pedaço do meu músculo a alguém que mo roubou, que mo levou, e construiu com ele um ser mais enervado que emotivo, um animal mais traiçoeiro que instintivo, uma vida mais mentira que verdade.

Percorro o túnel da minha alma, encontro pessoas que nunca chegaram a viver dentro de mim, ouço vozes que não consigo distinguir, vejo sentimentos que nunca cheguei a sentir, e lágrimas que nunca chegaram a percorrer a minha cara. . . mas até lá tudo é escuro, até lá eu ocupo um lugar negro nas fotografias, e os filmes se desfocam quando era a minha vez de aparecer. . .

Pergunto-me às vezes, se existem outras cores na vida, se para lá do gelo da minha expressão, algum dia poderá existir um sorriso, se algum dia poderei fechar os olhos para a vida, e confiar nela cegamente. . .

Foi o escuro que me ensinou que a vida não existe, que eu não faço parte do filme de alguém, e ninguém faz parte do meu. Foi o nada que me disse que não podemos esperar dos outros coisas que eles não são capazes de dar, simplesmente porque a sua alma é tão vazia como a minha. Que os sentimentos também ocupam lugares negros nas fotografias, porque até eles não são intemporais, até eles fazem parte de cenários que os cruéis inventam para fazer de conta que existem histórias em que as pessoas podem fechar os olhos e confiar cegamente umas nas outras.

É por eu ter deixado de acreditar em algo que jamais existirá, que a temperatura do meu corpo me obriga a chegar depressa ao destino da minha viagem, e os sonhos que personificam um fogo que nunca chegou a ter chama, se esfumam no vazio.

E com eles deixarei eu de existir um dia, quando já não houver ninguém que eu consiga avistar no túnel da minha alma e que me consiga reter no túnel da sua. . .


filipaferreira 11-02-2006

Tuesday, 9 January 2007

me . . .


How can the world be so stupid when i´m so obviously normal?!

Sunday, 7 January 2007

Navegue. . .


Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, deixe-se acariciar por ele, mas lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda a parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque, elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse deve segurar, não o deixe ir embora, agarre-o!
Quem ama? Guarde dentro de um guarda-jóias, tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui, a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a idade aumenta; conserve a vontade de viver, não se chega a parte alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.
Persiga um sonho, mas não o deixe viver sozinho.
Alimente a sua alma com amor, cure as suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades, mas não enlouqueça por elas.
Procure sempre o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso a quem se esqueceu como se faz isso.
Acelere os seus pensamentos, mas não permita que eles o consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de si.
Abasteça o seu coração de fé e não a perca nunca.
Mergulhe a cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo, só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos, mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague o seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

"Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada".

Fernando Pessoa

Monday, 1 January 2007