
Pinto o emaranhado de cores que há no tudo e no nada, como se o pincel fosse a ponta dos meus dedos… e eu entrelaço-o com a mesma força com que te entrelaço no meu pensamento.
A imaginação de um céu azul, estrelado como a povoação de buscas incessantes ao infinito do imaterial, fazem perder a capacidade de sonhar com os curtos raios de luz que de vez em vez nos invadem a alma.
Mas fechando os olhos, perco a frieza do pensamento e deixo-me levar pela bravura do vento, que faz dançar a um ritmo descoordenado as pontas dos meus cabelos… e o mundo parece outro.
Tudo roda, o tempo urge! O sapateado das danças aguçadas pelo brilho dos movimentos rápidos, o cintilar de um beijo num olhar negro, uma cambalhota estonteante no embalar das ondas, os passos que se ouvem nos ecos das memórias… as pegadas que se deixam nos caminhos das histórias.
Tudo desaparece, tudo se transforma… o vento não pára, o mundo rodopia no assobio de um pássaro, os sonhos caem de uma varanda que balança, o céu continua azul… nada se transformou, nada desapareceu, nada existiu…
Aperto uma última vez o pincel com a ponta dos meus dedos no entrelaço de um momento tão efémero, como tantos outros em que nos apercebemos que já vamos tarde para contemplar as estrelas cadentes, de tão fugaz que é a sua aparição nos céus… mas ainda assim, lanço a minha mão para as tentar alcançar e volto a fechá-la, como quem aperta um punhado de areia…
trago-a esperançosamente até ao alcance do meu olhar...
vazia...
filipaferreira 19-01-2007
2 comments:
está lindo!!!!! Tu és linda!!!
O vento espalha pétalas de lua sobre a calma da noite
Abrindo as nuvens de medos sussurrantes,
Revelando um céu quase virgem de olhares
Como se fosse a única vez que te tocasse
E a última,
De tal forma fulgurante
Que acendemos fogos sobre a água escura do rio
Com restos de entardecer,
Crepitando assustadoramente os nossos nomes,
O vernáculo que soltas quando nos temos,
Os nomes das coisas que inventamos, e fazemos
Sobre o suor das risos ao crepúsculo,
Dos suspiros que se confundem com o rumor da manhã,
Sem rumo, sem norte, sem bússola,
Perdidos,
Num recanto qualquer com vista para o Tejo,
Vagueando, algures na nossa embriaguez,
Devorando-nos em surdina,
Reclinados sobre um precipício que não acaba.
É tudo o que temos,
Quando nos temos…
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