Às vezes encontro no escuro uma nova forma de viver... nessas alturas é ele a mostrar-me o caminho do pensamento.
O frio invade-me o corpo como se me possuísse, e se apoderasse da minha mente, e eu deixo de ser. . .
As fotografias já não fazem sentido, os filmes já não contam a minha história. . . emprestei um pedaço do meu músculo a alguém que mo roubou, que mo levou, e construiu com ele um ser mais enervado que emotivo, um animal mais traiçoeiro que instintivo, uma vida mais mentira que verdade.
Percorro o túnel da minha alma, encontro pessoas que nunca chegaram a viver dentro de mim, ouço vozes que não consigo distinguir, vejo sentimentos que nunca cheguei a sentir, e lágrimas que nunca chegaram a percorrer a minha cara. . . mas até lá tudo é escuro, até lá eu ocupo um lugar negro nas fotografias, e os filmes se desfocam quando era a minha vez de aparecer. . .
Pergunto-me às vezes, se existem outras cores na vida, se para lá do gelo da minha expressão, algum dia poderá existir um sorriso, se algum dia poderei fechar os olhos para a vida, e confiar nela cegamente. . .
Foi o escuro que me ensinou que a vida não existe, que eu não faço parte do filme de alguém, e ninguém faz parte do meu. Foi o nada que me disse que não podemos esperar dos outros coisas que eles não são capazes de dar, simplesmente porque a sua alma é tão vazia como a minha. Que os sentimentos também ocupam lugares negros nas fotografias, porque até eles não são intemporais, até eles fazem parte de cenários que os cruéis inventam para fazer de conta que existem histórias em que as pessoas podem fechar os olhos e confiar cegamente umas nas outras.
É por eu ter deixado de acreditar em algo que jamais existirá, que a temperatura do meu corpo me obriga a chegar depressa ao destino da minha viagem, e os sonhos que personificam um fogo que nunca chegou a ter chama, se esfumam no vazio.
E com eles deixarei eu de existir um dia, quando já não houver ninguém que eu consiga avistar no túnel da minha alma e que me consiga reter no túnel da sua. . .
filipaferreira 11-02-2006
2 comments:
Ao fundo a linha inerte e horizontal do fim do mar era o divórcio dos desavindos azuis de um dia inteiro. Numa esplanada um palimpsesto humano respirava devagar, agarrado a um galão já vazio. Atrás de um balcão dois olhos eram ponteiros desanimados de um relógio parado. No paredão as pernas inquietas de um atleta ocasional eram uma efeméride. Em casa de alguém um ecrã regurgitava fotões inúteis e na cozinha de outrem uma torrada queimada foi a testemunha de um desejo mais forte que o derreter da manteiga. Numa rua um candeeiro iluminou um festim impúdico de asas e padrões. Numa folha branca, uma dúzia de palavras foram a dança desajeitada de um par inerte no seu desencaixe. Num cê uma cedilha assinou a carta de alforria da sua gaguez. Numa frase o ponto final não passa de um.
Querida Filipa:
adorei o texto, já li e reli.E faz muito sentido.Posso começar a citar-te no meu blog?è que para mim escreves melhor do que muitos que se designam de escritores comtemporâneos...
tens andado feliz?
sorriso
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