
Passeiam loucos os ponteiros do relógio, como multidões que correm incessantemente em caminhos que se cruzam. Esqueceram-se dos limites do tempo… todos se esqueceram dos limites do tempo...
E, de repente, tudo na vida se resume a horas, minutos, segundos. As horas transformadas em dias, meses, anos, que demoramos para construir a eternidade do que se procura toda a vida, os segundos que demoramos a destruí-las.
Mas os caminhos percorrem-se passo a passo, ao ritmo de qualquer relógio. O relógio que cavalga a uma velocidade vertiginosa quando estamos felizes, que esquecemos quando perdemos a noção do tempo, que pára quando nos rodeamos de sentimentos intempestivos que nos afundam a alma.
Mas as tempestades sucedem-se, os muros da vida vão aumentando e, de repente, lá estamos nós suspensos num ponteiro de qualquer relógio a tentar olhar para o mundo que fica para lá de nós. Aquele mundo que nos persegue enquanto tentamos escapar às rasteiras que a vida nos impõe. E sem nos apercebermos, estamos rodeados de números que se repetem sem que nada mais mude, de movimentos circulares de ponteiros descoordenados que nos enlouquecem.
E o pouco tempo que se tem nunca é aquele que usa enquanto os segundos avançam depressa, mas aquele que se perde quando deixamos que a vida pare em nós. Por isso, o tempo que temos que aproveitar é aquele imediatamente entre o segundo que já passou e o outro que vem a chegar. Tudo o resto são ponteiros do relógio mortos por ultrapassarem números numa corrida incessante para fugirem de si próprios…
filipaferreira 07-04-07
1 comment:
O tempo e os seus números são uma farsa desprezível, uma peça sem encenador e sem direito sequer a uma pateada. Cessem os ponteiros de rodar, cessem os eixos das rotações de picadeiro tirânicas. Viva-se em suspensão, no limbo que fica entre o tchac de cada segundo, é só coleccioná-los furtivamente e gozá-los às escondidas dos maníacos dos horários e restantes agrilhoamentos.
(felixcomosempre undercover)
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