
Viver é sempre voltar ao ponto de partida de nós . . .
Os espaços entre os nadas dão abrigo aos dias de tempestade, que não são nada mais que um interlúdio do pensamento.
Tento alcançar, em vão, a melodia da música que faz vibrar os meus sentidos, a beleza das cores do arco-íris. E há momentos que não se esquecem, palavras que se repetem por anos, como se fossem o impasse repetitivo de uma música num disco riscado… repetições e mais repetições…
E todos os dias um sorriso desaparece… nasce o vazio. Todos os dias os corpos se afastam depois de um abraço que nunca foi dado, e uma parte do brilho do olhar se transforma numa cicatriz debaixo da roupa. Fica o vazio como lembrança… o vazio do rolar das lágrimas, do desespero, da raiva, da desilusão, da saudade… do nada…
E mais uma vez me pergunto porque há páginas na história da nossa vida nas quais a tinta da nossa caneta não tem a capacidade de penetrar, a nossa borracha não consegue exercer o seu efeito… porque é impossível, tão simplesmente, rasgá-las?!
Recordo tudo o que se foi embora para dar lugar à enclausura da impotência… Era o que eu queria com todas as minhas forças… rasgar-te da minha história, e jogar as folhas amachucadas que nela foste à roleta russa da vida… abandonar este jogo que não pedi para jogar, e correr sem olhar para trás… nunca mais olhar para trás…
filipaferreira 29-01-2007

Pinto o emaranhado de cores que há no tudo e no nada, como se o pincel fosse a ponta dos meus dedos… e eu entrelaço-o com a mesma força com que te entrelaço no meu pensamento.
A imaginação de um céu azul, estrelado como a povoação de buscas incessantes ao infinito do imaterial, fazem perder a capacidade de sonhar com os curtos raios de luz que de vez em vez nos invadem a alma.
Mas fechando os olhos, perco a frieza do pensamento e deixo-me levar pela bravura do vento, que faz dançar a um ritmo descoordenado as pontas dos meus cabelos… e o mundo parece outro.
Tudo roda, o tempo urge! O sapateado das danças aguçadas pelo brilho dos movimentos rápidos, o cintilar de um beijo num olhar negro, uma cambalhota estonteante no embalar das ondas, os passos que se ouvem nos ecos das memórias… as pegadas que se deixam nos caminhos das histórias.
Tudo desaparece, tudo se transforma… o vento não pára, o mundo rodopia no assobio de um pássaro, os sonhos caem de uma varanda que balança, o céu continua azul… nada se transformou, nada desapareceu, nada existiu…
Aperto uma última vez o pincel com a ponta dos meus dedos no entrelaço de um momento tão efémero, como tantos outros em que nos apercebemos que já vamos tarde para contemplar as estrelas cadentes, de tão fugaz que é a sua aparição nos céus… mas ainda assim, lanço a minha mão para as tentar alcançar e volto a fechá-la, como quem aperta um punhado de areia…
trago-a esperançosamente até ao alcance do meu olhar...
vazia...