Tuesday, 27 February 2007

Ilusao

Às vezes a vida mostra-nos da forma mais difícil o caminho da compreensão.

Quando tudo parece já perdido, ouvem-se os sons de longe, as cores organizam-se em conjuntos e ganham forma, e o mar entoa o poema da esperança.

Acreditar nunca me pareceu tão difícil.

Como é doloroso fechar os olhos para o raiar do sol, e viver na escuridão momentos que nunca se agarram com a força da realidade. E fica tão fácil acreditar, como tão difícil torná-los parte da nossa vida.

Porque os sorrisos, a bravura das palavras, a partilha das canções, o cheiro dos momentos, cabem na dimensão dos sonhos e não na plenitude da vida. E de novo tudo se esfuma. As histórias terminam no palco, os panos descem, e enquanto uns se recompõem dos momentos vividos, outros aplaudem. E há momentos na vida que não passam disso mesmo: recordações de histórias de filmes ou espectáculos assistidos. Porque nada do que é vivido com veracidade se fica apenas pela dimensão dos sonhos ou pela bravura das memórias.

Mas até para saber compreender a mensagem dos sonhos ou das memórias é preciso viver a vida livremente. Às vezes basta contar ao mar momentos que nunca tiveram vida, e fazê-lo acreditar tão fortemente como nós acreditámos um dia. Porque não há maior prazer na vida que acreditar na liberdade dos sentimentos.

E de novo tudo se esfuma, e para sempre a vontade de fazer com que os sonhos se tornem realidade, mas nunca a bênção de acreditar e de lutarmos pela liberdade de sermos felizes. Porque às vezes, na razão da escuridão nasce a luz de continuarmos a acreditar nas coisas simples da vida, mas ainda assim as mais importantes, e que essas sim serão reais e verdadeiras para sempre…


filipaferreira 29-10-2006

Friday, 16 February 2007

Olhar para trás


Olho para trás, para a enumeração das coisas que não dissemos, das que morreram ou que nem chegaram a nascer, e tudo me parece mais claro que as pedras no fundo de um rio, por baixo de um espelho de águas límpidas que plantámos.

Mas estão todos lá, os nadas que imortalizámos em sucessões de abrigos ao inevitável, que sempre foi o silêncio… o silêncio da água turva que alimentámos, o silêncio das teias de aranha que não limpámos, o silêncio das músicas que não ouvimos, o silêncio do olhar… quando ainda nos olhávamos.

E só na enumeração das pedras que deixámos componho a história que nos passou ao lado num atropelo de imprudências mal escritas. Hoje, nem elas me permitem recuperar o fôlego de uma corrida que dei, sim, mas nunca em prol da catadupa de degraus que vejo agora, quando olho para trás.

Limpo o pó do baú de recordações, e sei que lá dentro estão os capítulos de vezes em que víamos o dia nascer, e mesmo assim não compreendíamos porque não vemos uma formiga quando ela está em cima da ponta do nosso nariz. Ainda assim, abro-o e fico com a certeza que há coisas que nem o sonho é capaz de mudar, pedras que nunca mais se conseguem tirar do fundo de um rio, teias de aranha que hão-de voltar sempre a aparecer no canto do inimaginável, e músicas que havemos de ouvir sempre no lado mais silencioso de nós.

Porque há muros que nunca se transpõem com a simples fugacidade de querer muito, e vidas que não acabam com a vírgula que é morrer. E entre empurrões e tropeções, solidões exasperadas e realidades frustradas, eu olho para trás e volto a enumerar as pedras por baixo do espelho de água límpida, que sou eu... mas no abraço da enumeração dos nós que a vida nos dá, está a chave de caminhar sem ter medo de olhar para trás…


filipaferreira 16-02-2007

Friday, 9 February 2007

frase solta





Viver é sempre voltar ao ponto de partida de nós . . .


Monday, 29 January 2007

pensamento

Os espaços entre os nadas dão abrigo aos dias de tempestade, que não são nada mais que um interlúdio do pensamento.

Tento alcançar, em vão, a melodia da música que faz vibrar os meus sentidos, a beleza das cores do arco-íris. E há momentos que não se esquecem, palavras que se repetem por anos, como se fossem o impasse repetitivo de uma música num disco riscado… repetições e mais repetições…

E todos os dias um sorriso desaparece… nasce o vazio. Todos os dias os corpos se afastam depois de um abraço que nunca foi dado, e uma parte do brilho do olhar se transforma numa cicatriz debaixo da roupa. Fica o vazio como lembrança… o vazio do rolar das lágrimas, do desespero, da raiva, da desilusão, da saudade… do nada…

E mais uma vez me pergunto porque há páginas na história da nossa vida nas quais a tinta da nossa caneta não tem a capacidade de penetrar, a nossa borracha não consegue exercer o seu efeito… porque é impossível, tão simplesmente, rasgá-las?!

Recordo tudo o que se foi embora para dar lugar à enclausura da impotência… Era o que eu queria com todas as minhas forças… rasgar-te da minha história, e jogar as folhas amachucadas que nela foste à roleta russa da vida… abandonar este jogo que não pedi para jogar, e correr sem olhar para trás… nunca mais olhar para trás…

filipaferreira 29-01-2007

Saturday, 20 January 2007

Azul


Pinto o emaranhado de cores que há no tudo e no nada, como se o pincel fosse a ponta dos meus dedos… e eu entrelaço-o com a mesma força com que te entrelaço no meu pensamento.

A imaginação de um céu azul, estrelado como a povoação de buscas incessantes ao infinito do imaterial, fazem perder a capacidade de sonhar com os curtos raios de luz que de vez em vez nos invadem a alma.

Mas fechando os olhos, perco a frieza do pensamento e deixo-me levar pela bravura do vento, que faz dançar a um ritmo descoordenado as pontas dos meus cabelos… e o mundo parece outro.

Tudo roda, o tempo urge! O sapateado das danças aguçadas pelo brilho dos movimentos rápidos, o cintilar de um beijo num olhar negro, uma cambalhota estonteante no embalar das ondas, os passos que se ouvem nos ecos das memórias… as pegadas que se deixam nos caminhos das histórias.

Tudo desaparece, tudo se transforma… o vento não pára, o mundo rodopia no assobio de um pássaro, os sonhos caem de uma varanda que balança, o céu continua azul… nada se transformou, nada desapareceu, nada existiu…

Aperto uma última vez o pincel com a ponta dos meus dedos no entrelaço de um momento tão efémero, como tantos outros em que nos apercebemos que já vamos tarde para contemplar as estrelas cadentes, de tão fugaz que é a sua aparição nos céus… mas ainda assim, lanço a minha mão para as tentar alcançar e volto a fechá-la, como quem aperta um punhado de areia…
trago-a esperançosamente até ao alcance do meu olhar...
vazia...


filipaferreira 19-01-2007

Saturday, 13 January 2007

escuro

Às vezes encontro no escuro uma nova forma de viver... nessas alturas é ele a mostrar-me o caminho do pensamento.

O frio invade-me o corpo como se me possuísse, e se apoderasse da minha mente, e eu deixo de ser. . .

As fotografias já não fazem sentido, os filmes já não contam a minha história. . . emprestei um pedaço do meu músculo a alguém que mo roubou, que mo levou, e construiu com ele um ser mais enervado que emotivo, um animal mais traiçoeiro que instintivo, uma vida mais mentira que verdade.

Percorro o túnel da minha alma, encontro pessoas que nunca chegaram a viver dentro de mim, ouço vozes que não consigo distinguir, vejo sentimentos que nunca cheguei a sentir, e lágrimas que nunca chegaram a percorrer a minha cara. . . mas até lá tudo é escuro, até lá eu ocupo um lugar negro nas fotografias, e os filmes se desfocam quando era a minha vez de aparecer. . .

Pergunto-me às vezes, se existem outras cores na vida, se para lá do gelo da minha expressão, algum dia poderá existir um sorriso, se algum dia poderei fechar os olhos para a vida, e confiar nela cegamente. . .

Foi o escuro que me ensinou que a vida não existe, que eu não faço parte do filme de alguém, e ninguém faz parte do meu. Foi o nada que me disse que não podemos esperar dos outros coisas que eles não são capazes de dar, simplesmente porque a sua alma é tão vazia como a minha. Que os sentimentos também ocupam lugares negros nas fotografias, porque até eles não são intemporais, até eles fazem parte de cenários que os cruéis inventam para fazer de conta que existem histórias em que as pessoas podem fechar os olhos e confiar cegamente umas nas outras.

É por eu ter deixado de acreditar em algo que jamais existirá, que a temperatura do meu corpo me obriga a chegar depressa ao destino da minha viagem, e os sonhos que personificam um fogo que nunca chegou a ter chama, se esfumam no vazio.

E com eles deixarei eu de existir um dia, quando já não houver ninguém que eu consiga avistar no túnel da minha alma e que me consiga reter no túnel da sua. . .


filipaferreira 11-02-2006

Tuesday, 9 January 2007

me . . .


How can the world be so stupid when i´m so obviously normal?!