Saturday, 7 April 2007

Ponteiros de relógio


Passeiam loucos os ponteiros do relógio, como multidões que correm incessantemente em caminhos que se cruzam. Esqueceram-se dos limites do tempo… todos se esqueceram dos limites do tempo...

E, de repente, tudo na vida se resume a horas, minutos, segundos. As horas transformadas em dias, meses, anos, que demoramos para construir a eternidade do que se procura toda a vida, os segundos que demoramos a destruí-las.

Mas os caminhos percorrem-se passo a passo, ao ritmo de qualquer relógio. O relógio que cavalga a uma velocidade vertiginosa quando estamos felizes, que esquecemos quando perdemos a noção do tempo, que pára quando nos rodeamos de sentimentos intempestivos que nos afundam a alma.

Mas as tempestades sucedem-se, os muros da vida vão aumentando e, de repente, lá estamos nós suspensos num ponteiro de qualquer relógio a tentar olhar para o mundo que fica para lá de nós. Aquele mundo que nos persegue enquanto tentamos escapar às rasteiras que a vida nos impõe. E sem nos apercebermos, estamos rodeados de números que se repetem sem que nada mais mude, de movimentos circulares de ponteiros descoordenados que nos enlouquecem.

E o pouco tempo que se tem nunca é aquele que usa enquanto os segundos avançam depressa, mas aquele que se perde quando deixamos que a vida pare em nós. Por isso, o tempo que temos que aproveitar é aquele imediatamente entre o segundo que já passou e o outro que vem a chegar. Tudo o resto são ponteiros do relógio mortos por ultrapassarem números numa corrida incessante para fugirem de si próprios…

filipaferreira 07-04-07

Tuesday, 27 March 2007

rectas paralelas


Os espaços mortos que me deixas são uma soma de rectas paralelas que nunca se chegam a cruzar. São elas que constroem o túnel através do qual vou caminhando, sem saber muito bem para onde e até quando, sem conseguir antever o seu fim.

Mas cá estou eu, rodeada de nadas infinitamente concretos, de falas profundamente silenciosas, de cadeiras vazias e esperas demoradas. Bebo o meu café de manhã, e o nível desse líquido opaco contínua imóvel no copo que é o teu… a tua cadeira vazia… a tua ausência presente. O telefone toca, ouço a tua voz quando atendo, mas não tenho registo de chamadas tuas.

E sem te ter a meu lado, os dias vão passando, enquanto por ti espero nessa esplanada de quiosque onde te vejo sempre… esperas demoradas… e na demora de um sinal teu, a cadeira a meu lado continua desocupada… e quem dera que o vazio que deixas em mim fosse só do tamanho desse lugar sem ninguém, a que já me habituei.

Mas todos esses “teus” continuam presentes em mim sem que ninguém os consiga alcançar. São tesouros perdidos no fundo do mar, que nem eu sei se de lá sairão algum dia. Sou eu, perdida no tempo do silêncio.

E é tudo tão vago como concreto, fugaz como eterno… uma fugacidade de aparições, conversas, trocas de calor quando as peles se tocam, por entre os espaços mortos, tão concretos, de rectas paralelas que nunca se chegam a cruzar…


filipaferreira 27-03-07

Monday, 19 March 2007

Banco de jardim


Num fogo desatado de emoções escrevo as letras das canções que deixaste em mim, como se a sua melodia fosse ecoar cá dentro até eu perder os sentidos. Os espaços deixaram de ser físicos, os sons audíveis, e o mundo já não me dá a mão. E de novo o que se sente e não se vê, me obriga a acreditar verdadeiramente nas coisas que conseguimos palpar, e não no barulho do mar, no assobio de um pássaro que não se vê.

Porque o que parece existir num dia, é muitas vezes o acordar de um sonho que se deixa a meio numa noite de tempestade. São histórias que sabemos de cor, mas que reflectem páginas em branco do nosso livro, como se nunca tivessem existido. E acreditar nelas parece utópico. Uma utopia com degraus e patamares que se percorrem vezes sem conta sem nunca sairmos do mesmo sítio.

Olho para o mundo lá fora, e os ritmos alucinados das vidas afogadas, dos tropeções fugazes, fazem antever bancos de jardim onde, Inverno após Inverno, só o sol se lá senta. E como tudo está tão distante e os olhares não se cruzam. Como os sentidos não se sentem e os passos não se dão, e as pessoas falam sem se ouvirem.

E de novo acredito nas coisas que temos como certas... num lugar a beira mar onde podemos sempre voltar, num copo que cai ao chão e se estilhaça, no tempo que não volta atrás, no ponto final da vida que nos espera.

E é num fogo agarrado de emoções que percebo tudo isto e permaneço imóvel, enquanto transformo os ecos das melodias que deixaste em mim em canções audíveis a todo o mundo. Esse mundo que me vai passando ao lado em ritmos alucinantes que se constroem sem se poder voltar atrás. Esse mundo que me vê sem me ouvir, e me olha sem se cruzar comigo. Esse mundo que deixo enquanto sonho, e que vejo passar por mim sem lhe conseguir tocar... eu, sentada num banco de jardim...


filipaferreira 19-03-2007

Friday, 16 March 2007

Guardar


Guardar…

Guardar as imagens que me vêm de ti
em explosões de beijos repescados
loucuras escondidas, corridas ganhas,
num filme que vimos…

As histórias que lemos, as canções que ouvimos,
houve um dia escuro em que cheguei a esquecer,
que há coisas que a vida grava na pedra que somos,
e que nós guardamos no sinónimo de eterno.

E o que se guarda é sempre menor do que o que se ganha,
maior do que o que se perde, e igual ao que se teve:
nunca se perde nada do que nunca se chegou a ganhar,
nem se guardam momentos que não tenham ficado primeiro gravados no filme que fomos.

Mas na loucura de lembrar
o que se guarda no sufoco de lutas perdidas,
esquecemos o que ficou para trás:
o porquê de um filme que pusemos na pausa,
que não vimos nem fomos,
e não lembrámos de guardar
na miragem do depois…


Guardar…
entontecer de tanto lembrar o que guardamos
no pedaço de sentimentos confusos que somos…
Como entonteço quando me lembro
do eterno que gravei em mim
com as imagens que me vêm de ti…


E como volto à realidade quando percebo
que guardei também a lembrança
de um filme que deixámos esquecido,
e guardámos para depois…


filipaferreira 16-03-2007

Tuesday, 27 February 2007

Ilusao

Às vezes a vida mostra-nos da forma mais difícil o caminho da compreensão.

Quando tudo parece já perdido, ouvem-se os sons de longe, as cores organizam-se em conjuntos e ganham forma, e o mar entoa o poema da esperança.

Acreditar nunca me pareceu tão difícil.

Como é doloroso fechar os olhos para o raiar do sol, e viver na escuridão momentos que nunca se agarram com a força da realidade. E fica tão fácil acreditar, como tão difícil torná-los parte da nossa vida.

Porque os sorrisos, a bravura das palavras, a partilha das canções, o cheiro dos momentos, cabem na dimensão dos sonhos e não na plenitude da vida. E de novo tudo se esfuma. As histórias terminam no palco, os panos descem, e enquanto uns se recompõem dos momentos vividos, outros aplaudem. E há momentos na vida que não passam disso mesmo: recordações de histórias de filmes ou espectáculos assistidos. Porque nada do que é vivido com veracidade se fica apenas pela dimensão dos sonhos ou pela bravura das memórias.

Mas até para saber compreender a mensagem dos sonhos ou das memórias é preciso viver a vida livremente. Às vezes basta contar ao mar momentos que nunca tiveram vida, e fazê-lo acreditar tão fortemente como nós acreditámos um dia. Porque não há maior prazer na vida que acreditar na liberdade dos sentimentos.

E de novo tudo se esfuma, e para sempre a vontade de fazer com que os sonhos se tornem realidade, mas nunca a bênção de acreditar e de lutarmos pela liberdade de sermos felizes. Porque às vezes, na razão da escuridão nasce a luz de continuarmos a acreditar nas coisas simples da vida, mas ainda assim as mais importantes, e que essas sim serão reais e verdadeiras para sempre…


filipaferreira 29-10-2006

Friday, 16 February 2007

Olhar para trás


Olho para trás, para a enumeração das coisas que não dissemos, das que morreram ou que nem chegaram a nascer, e tudo me parece mais claro que as pedras no fundo de um rio, por baixo de um espelho de águas límpidas que plantámos.

Mas estão todos lá, os nadas que imortalizámos em sucessões de abrigos ao inevitável, que sempre foi o silêncio… o silêncio da água turva que alimentámos, o silêncio das teias de aranha que não limpámos, o silêncio das músicas que não ouvimos, o silêncio do olhar… quando ainda nos olhávamos.

E só na enumeração das pedras que deixámos componho a história que nos passou ao lado num atropelo de imprudências mal escritas. Hoje, nem elas me permitem recuperar o fôlego de uma corrida que dei, sim, mas nunca em prol da catadupa de degraus que vejo agora, quando olho para trás.

Limpo o pó do baú de recordações, e sei que lá dentro estão os capítulos de vezes em que víamos o dia nascer, e mesmo assim não compreendíamos porque não vemos uma formiga quando ela está em cima da ponta do nosso nariz. Ainda assim, abro-o e fico com a certeza que há coisas que nem o sonho é capaz de mudar, pedras que nunca mais se conseguem tirar do fundo de um rio, teias de aranha que hão-de voltar sempre a aparecer no canto do inimaginável, e músicas que havemos de ouvir sempre no lado mais silencioso de nós.

Porque há muros que nunca se transpõem com a simples fugacidade de querer muito, e vidas que não acabam com a vírgula que é morrer. E entre empurrões e tropeções, solidões exasperadas e realidades frustradas, eu olho para trás e volto a enumerar as pedras por baixo do espelho de água límpida, que sou eu... mas no abraço da enumeração dos nós que a vida nos dá, está a chave de caminhar sem ter medo de olhar para trás…


filipaferreira 16-02-2007

Friday, 9 February 2007

frase solta





Viver é sempre voltar ao ponto de partida de nós . . .