Tuesday, 6 November 2007

saudade



Não sei onde te perdi... se nos resguardos de um sonho inacabado, se nas escadarias de pedra prateada em que a minha mão se desprendeu da tua, se no calor de um abraço que terás julgado frio demais.


Olho para este mar frio de Inverno, e num ápice nunca nada me pareceu tão perfeito: os silêncios que os nossos olhares transcreviam em cumplicidade, a mímica de gestos que sempre adivinhámos um no outro, ou o ranger de dentes que nos avivava a audição...


Uma perfeição de claves de sol que juntos escrevemos na pauta, de "lás" que desenhámos no seu contexto e de "dós" que aprisionámos no seu fim. Fomos tudo isso, e isso foi o que nada fomos. Um conjunto de letras feitas sem sentido mas que encaixaram perfeitamente nas suas melodias. Um conjunto de músicas que contam grandes histórias e compõem esse CD recordável que fomos... esse que ainda ouço hoje nos ecos de mim... esse que ficou esquecido na prateleira de uma estante e que nunca chegámos a editar.


Se hoje o oiço, é porque foi lá que te encontrei, foi lá que nos perdemos, e é lá que te hei-de encontrar sempre... nessa faixa escondida de uma história que me encanta a cada vez que a recordo, nesse caminho do qual nos desviámos quem sabe, para nunca mais lá voltarmos. E se lá te perdi, é lá que te vou aprisionar: nesse pequeno sonho inacabado... dentro desse grande sonho que é a minha vida!



filipaferreira 06-11-2007

Monday, 29 October 2007

és-me

Fecho os olhos e vejo-te de perfil. Sei-o de cor. A dimensão do olhar que transportas nas linhas do tempo que deixas por escrever, a longitude que ele alcança, os rastos que vai deixando pelo caminho.

Perscruto-o e desvendo-o aos bocadinhos. Uma soma de traços alinhados em linhas curvas quem me embriagam. Um encaracolar de palavras balbuciadas, de gestos ferozes e indomáveis. Mas isto sou eu a ver-te de perfil, não a olhar-te nos olhos.

Esses jactos direccionados de água que me submergem se me atingem, e me aprisionam nessa caixa de lápis de côr onde somos um só. Mas não tenho medo que entres nas profundidades de mim. Não saberias mais de mim, não tenho mais segredos por desvendar, não sou mais que aquilo que já sabes.

Já te conduzi pelos trilhos mais profundos de mim, e dei-te todas as batalhas a ganhar. Revelei-te o nome de todos os ingredientes para me cozinhares. Ensinei-te os rabiscos coloridos que me formam, para me poderes desenhar também. Pinta, desenha... desenha até não poderes mais.

Não preciso de tudo sem ti... preciso de ti para ser tudo. Só quero que sejas, que estejas e que vivas. Que construas comigo o sonho de um livro cheio de páginas escritas, de próximos capítulos, de "para sempres" imortalizados. Subir degrau a degrau a realidade de gestos cúmplices, de olhares que se tocam, de juras cumpridas, de sentimentos conquistados... com as tuas mãos bem presas às minhas...


filipaferreira 29-10-2007

Saturday, 20 October 2007

eternamente


"... cresci a pensar que amava os frutos, o mar, o céu, a chuva!!!!

Andei a deriva à espera que pudesse ser recompensada por ter aprendido a amá-los. Mas nem
sempre por tudo na vida se recebe recompensa... o puro amor jamais será recompensado.

Por vezes é necessário que a árvore deixe de dar frutos, que sejamos privados de olhar o mar, o céu, de sentir a chuva, para vermos o quão insignificantes se tornam, à luz de quando somos privados de amar.

Nessas alturas a dor e o arrependimento mostram-nos o caminho da felicidade, aquele que procuramos incansávelmente por toda a parte, toda a vida.

Foi então que encontrei o meu caminho e compreendi que era feliz só por te amar. Mas rápidamente percebi que jamais seria recompensada, porque o puro amor reside em ti.

Aquele que se apodera de nós, e é o único a viver ETERNAMENTE..."

escrito algures em 2001 filipaferreira

Thursday, 11 October 2007

refrão

Caminho sem saber caminhar,
e ao saber,
talvez nao caminhasse assim.
...................................................................
Procuro, procurando, querendo encontrar,
o sonho que é a vida onde me passeio,
o banco que é onde por ela espero,
o interruptor que é a sombra onde me escondo,
o segredo de acender-lhe a luz dentro de mim.
................................................................................
Acordo às vezes sem abrir os olhos,
como chocolates, junto-lhes as pratas,
visto-as a rigor, segredam borboletas,
sei-lhes o cheiro de cor...
mas não encontro a chave,
nem a resposta,
nem o som,
nem eu...
nem a mim...
.......................................................................................
Mas danço dentro dessas quadrículas apertadas,
soam sinetas, múrmurios (sou eu a falar?!),
e procuro a saída, o destino, o fado,
o refrão deste poema sem sentido,
o fim dos círculos desfigurados que o meu corpo desenha.
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E serei eu este, aquele ou o outro?
o piano acariciado sem emitir sons,
e se procurasse emitiria o caminho,
ou caminhava como eu?!...
sem saber... E caminharia assim?!
.................................................................
Mas entre as claves de sol, as teclas sonantes,
os gritos ouvidos, as terras perdidas,
as músicas cantadas entoando tormento,
os beijos roubados, as guerras travadas...
há um traço, uma curva, uma roda, ou até um ponto.
.....................................................................................
um ponto... um ponto... dois pontos... ou um ponto?!
..............................................................
Não!!!! um CAMINHO!
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filipaferreira 11-10-07

Wednesday, 3 October 2007

Há dias assim


..................................................Há alturas em que os quadrados parecem bOlas e um cubo de gelo me bloqueia o pensamento. o pensamento. ............................................................................................. Existo numa fotografia guardada numa moldura velhA, colada com fita cola para não se perder. De lá espreito o mundo que se move a uma velocidade alucinAnte, as pessoas que perdem o tempo numa caminhada apressada, e não voltam atrás para o apanharem. Custo a conseguir aperceber-me da temperatura a que a minha expressão congelou e os meus movimentos se descoordenaram com a vida. Lá, sou mais impressão que ReAlidAde. ........................................................
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::E sinto-me assim, com mEdO de pisar o caminho que tenho à minha frente. Com medo que ele não exista ou que eu não exista nele. ...........................................
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::Mas espero, nesse banco de jardim que pintei da cor que gostava que existisse em mim. Fora dele, a minha mão pouco alcança, o meu sonho fica em pause, e o mundo é o resultado de uma soma de suposições e pontos de interrogação.
........................................................................................................ E resumo-me a esse conjunto de lusco-fuscos pErdiDos na noite. Dentro deles, sucessões de esperas, mais demoradas, meio vivas meio mortas, como quem está numa paragem de autocarro a aguardar a sua vinda em dias de greve.
...................................................................................................... O mundo lá fora avança, e dentro do meu tudo parado. A estagnação dos sorrisos, do movimento dos pássaros, a imobilidade do vento, das gotas de chuva a cair ..............................................................

.........................................................................................E se acordo, se caminho, se desisto sem ter tentado... um banco... eu. Volto sempre ao mesmo ponto de partida: sou lembrança dentro de uma moldura que já não se torna real no olhar de ninguém. E isso sou eu, uma imagem de um pensamento muito pouco lúcido, de uma VisÃo meio turva, meio perdida...

filipaferreira 03-12-2007

Friday, 21 September 2007

ansiedade


Não existe a palavra "cor" no dicionário em que me encontro. Ao invés, páginas de espera, repetição de sons, frases que não se formam devido à estagnação do pensamento. Parar. Fazê-lo contra-vontade pode ser criticável. Compreensível para mim, porque os segundos avançam no relógio da vida, e eu... aqui... parada...


Mas nunca ninguém disse que só é possível caminhar com as pernas, pois não?!
filipaferreira 21-09-2007

Tuesday, 4 September 2007

Idiopatia do querer



Caminho a passos largos com a idiopatia do querer.


Na sombra de um passo existe o ganhar folêgo para outro, os pulmões colados às costelas, o coração a bater... páro!


Revejo os estilhaços de mim no espelho de uma poça de água que ficou na sombra do tempo. Olho para mim e não me reconheço. Para lá de um sorriso uma expressão congelada pelos infortúnios da vida. Não fui a peça original dos pedaços partidos dentro de mim, nem sou o seu conjunto depois de reorganizados. Sobram peças mas continuam a haver buracos por preencher.


Mas quero, continuo a querer.


Pinto em tela o espaço de um lugar preenchido por sofás, maples, candeeiros, jornais. Estou sentada no sofá vermelho do canto. Passo a mão pelo lugar a meu lado, e ainda se encontra quente, como se tivesses estado lá há tão pouco tempo, quanto os poucos minutos que conto sem conseguir pensar em ti. E a realidade é que nunca lá estiveste, mas ainda assim desenho-te na perfeição e pinto a tua roupa com as tuas cores preferidas. Ainda não me ensinaram a técnica para pintar os cheiros, mas sabendo-a, pintaria na perfeição o odor teu, que sinto no que resta deste cenário que invento.


E nesse lugar em que te aprisionaste, não há espaço para uma respiração contra o meu peito, uma mão pelos meus cabelos, uma palavra no meu ouvido. Não me procuras. Não invento mais...
Na realidade nunca estiveste a meu lado. Talvez até eu nunca lá tenha estado, sentada nesse sofá vermelho em que gostava de te ter tido ao meu lado. Abraçar-te. E mesmo se te pintasse a meu lado nesta tela que invento, existiria com certeza uma parede de cimento entre nós, mesmo que estivessemos lado a lado, nesse mesmo sofá. Uma parede que não construí, uma barreira que não sou eu. O limite entre o conjunto desorganizado que sou, os estilhaços em que me tornei, e a incompletude da sua reorganização.


E nessa galeria de arte em que me passeio, acordo para a realidade da cena que me acompanha. Um quadro que sou obrigada a deixar para trás, uma tela em que nunca estive, e muito menos em que te tive a meu lado, cores que se apagaram na vida que transporto comigo. Mas como queria ter ficado lá, como queria que nos tivessem visto lá... um querer tão forte quanto a realidade que invento de lá ter estado contigo.


Mas quero, quero muito, e hei-de continuar a querer!

filipaferreira 04-09-2007



dedido este post aos que o ansearam, como eu...