Thursday, 24 April 2008

SIM

Perguntas-me como. Eu respondo-te "não sei". Não tencionava dirigir-te estas respostas vagas. Não queria iludir-te com meios termos. Lembro-me dos sonhos que tenho e escolho quais das partes não contar para que se realizem.

Na realidade encontrar-te-ia nesse vasto oceano em que me escondo eu. E perder-te-ia outra vez porque não me encontro a mim. Não estou ao virar da esquina. Não espero o pôr-do-sol numa esplanada do quiosque. Não guardo livros numa estante à espera que o tempo passe. Não os leio com medo que ele se esgote.

Por isso aqui estou eu a gastar o tempo que demora um cigarro a queimar. Outro. E isso não me assusta. Ver aparecer a cinza, expulsar-lhe o fumo, frente ao mar nesta janela de hotel. Ter-te aqui, nesses lençóis tão pouco brancos. Mas perto. Perto do alcance de um olhar.

Sei que me lês os pensamentos. Afinal já ocupei este lugar vezes demais para que não tivesses decorado a moral da história. Mas não hoje. Hoje decidi que fico. Fico até não poder mais. Fico até conseguir dizer que sim. Porque é sim. SIM. Fico para te abraçar. Fico para te ver ficar, ou partir primeiro. Fico porque não me escondo mais.

Acordas e estou a teu lado. A incredulidade não absorve a tua capacidade de previsão. Chamar-lhe-ia querer…

Perguntas-me:
-
Ficaste?!

Respondo-te:
- SIM. O mar hoje está bonito demais para que me consiga ir embora.



filipaferreira 24-04-2008

Sunday, 30 March 2008

suor

hoje sonhei contigo. navegavas no mundo dos meus sonhos com aquele à-vontade de quem tem as chaves de casa do mundo para entrar. aumentei o volume. adicionei-lhe cor. na limpidez de uma memória putrificada no tempo, as recordações bóiam no espaço de uma operação matemática em que o resultado és tu. porque me apareces assim?! nesses resquícios de pensamentos que não controlo?! nessa aparição fugaz que me inunda de desejo?! entro nesse carrossel de emoções sem medos nem resguardos. tenho medo que o tempo o leve. afinal, lá sou feliz. lá, compras-me nessa loja de antiguidades em que ninguém me quer, restauras-me, e colocas-me frente à janela que apanha mais sol na tua casa. não, não me vendo. não sou minha. não sou de ninguém. sou momentaneamente de quem me compra, de quem possuí o meu corpo. não tenho medo que me troques por algo de igual valor. não tenho medo que me devolvas no prazo de quinze dias ou um mês. sei o que valho. sei o que sou e não sou de ninguém. sou tua quando me possuís, quando fazemos amor. sou tua quando me levas à exaustão do prazer e me fazes suar em linhas sem parágrafos. sou tua enquanto navegas nessas marés de sonhos que me fazem delirar as entranhas. anseio o prazer. depois anseio-te a ti. serei talvez tua, se ninguém me tiver comprado antes, se me apareceres nas flutuações da vida. até lá sonho. vivo. deixo-te correr nas veias dos meus sonhos e não te peço para fechares a porta depois de entrares. fecho-a eu. chegas-me assim. nunca serei inteiramente tua. jamais eternamente de alguém. quero que fiques. quero que venças sempre o jogo nesse meu mundo dos sonhos. só lá. e apenas lá. chegas-me assim.


filipaferreira 30-03-2008

Tuesday, 11 March 2008

porquê.


quando procurei por ti já não estavas. e pensar que corri depois do trabalho para comprar os bolos e o chá de que tanto gostas. mas já me habituei a estas ausências em espaços aos quais nunca pertenceste. pertenceram-te eles, mesmo quando a tua presença não era mais do que uma esperança, um simples odor que reconstruía do que restou na minha memória do que foi em tempos o teu perfume. ponho o CD de música clássica, e enquanto o perscruto, vêem-me à memória as lembranças da tua roupa espalhada pelo chão, dos livros tão imprópriamente deixados em qualquer lugar, da toalha de banho molhada em cima da cama. todos os dias esperei por ti, e senão assim, em cada viagem de regresso a casa, rezava para poder encontrar toda esta desarrumação tão característica da tua presença. preferia tudo isto, mesmo quando me enfurecia. continuo a preferi-lo hoje. não me pertencem a mim este conjunto de silêncios que não encaixam neste espaço, de faltas de sentido na minha vida. pergunto-me hoje, se te tivesse dito tudo isto, se mudaria alguma coisa. afinal todo este vazio que carrego não é mais do que a desarrumação dos sentimentos contraditórios em que me tornei. não me questionas. eu respondo porquê. porquê hoje. porque é que ao fim de 20 anos de silêncios ensurdecedores, esperei por ti para lanchar. hoje, no trabalho, pediram-me para pintar o amor. deixei a tela em branco. porquê. menti... nunca me habituei à tua ausência. talvez por isso continue a procurar por ti neste espaço. encontro-te. porquê. porque sei que só a ti ele algum dia pertenceu.


filipaferreira 11-03-2008

Wednesday, 6 February 2008

carta

Faltam-me as palavras para decifrar o que resta da vontade que não é a minha.

Afinal desistimos. Gravámos o sabor do último abraço, do olhar até sempre. Lutámos sempre de menos, vivemos sempre de menos, como se espera de um rewind com uma pausa assim. Chamar-lhe-ei pausa. Uma pausa para sempre num amor demasiado intenso.

O que nos faltou foi isso. Aquilo que este vazio não me deixa ainda ver.

E se o amor não nos deixa ver nem um palmo à frente do nariz, talvez estivessemos estado sempre um palmo atrás do nosso.

Não construímos os alicerces, nem destruímos as brasas. Chamámos-lhe um dia amor, vivemo-lo um dia, e hoje em dia olhamos as cinzas com sabor a saudade, tentando preencher essas ausências que lhe faltaram.

Talvez o caminho seja só este. Será. Nunca houve nenhum “tarde demais”. Estávamos lá os dois. Caminhámos os dois para aquela estação de comboios, em que metade do dinheiro com que compraste o bilhete, era meu. Chegámos a horas, e ainda esperámos dois minutos. Tempo suficiente para não sei o quê. Não sei o quê.

Carreguei-me contigo na tua bagagem antes de entrares. Foram os dois minutos da minha vida. Não nos olhámos, não colámos as mãos ao vidro. Não era uma despedida.

Vi o comboio partir, e já sabia que era para sempre.



filipaferreira 06-02-2008

Saturday, 12 January 2008

aprender

Passou mais um ano e de punho cerrado guardo o que viajou comigo através dele, o que desembarcou comigo.

Aprendi que sempre fizeste parte de mim mesmo que tenhas embrulhado e desembrulhado esse ponto final que me ofereceste.

Aprendi que as fotografias guardam momentos que ficam para sempre gravados em nós. Imprimi algumas do album que ficou gravado em mim.

Aprendi que as recompensas não têm prazos, não têm tempo. Não vale a pena esperar por nada que não seja conseguido com amor.

Aprendi que há pessoas que nunca serão felizes por aquilo que não constroem. Tive a certeza que não sou uma delas.

Aprendi que tudo à minha volta é tão mais belo do que a beleza que lhes vejo. Aprendi que belo é ter os que amo para olhar comigo.

Aprendi que todos os dias erro. Que todos os dias volto atrás sem sair do mesmo sítio. Que todos os dias fujo e alcanço. Que todos os dias cresço.

Aprendi que o que é verdadeiro perdura e o que nunca foi ou deixou de ser é uma página virada. Não virei nenhuma.

Ao invés construí letra a letra a história que me acompanhou. Reinventei as palavras, dei-lhes o meu sabor, conduzi-lhes as frases. Porque a cerrei, a história essa, nos meus punhos com toda a força que sou. Dei-lhe força e fi-la viajar comigo... não mais do que viajo eu com ela. Para mim uma viagem sem fim.

Aprendi a agradecer. Obrigada.


2008 felizes aprendizagens para todos

Wednesday, 12 December 2007

onde estou



Não te procuro, e se te encontro, desde logo te perco.
Rasgaste o pedaço de papel onde reinventámos e desenhámos o meu sorriso. Pedaços sem caminho para onde ir, perdidos no que sobrou dessa folha A4.
Todos os dias acabo por encontrar um deles. Nos momentos em que te recordo e logo vou ao dicionário procurar o sinificado da palavra saudade. Tão pequena essa palavra. Tão grandemente sinónima do apelido que te atribuí.
Aparentemente desenhei outro. Aparentemente coloquei-o no lugar. Aparentemente servi-me dele, deixei que fizesse rasgos na minha cara, e cheguei a ensinar-lhe o caminho da felicidade. Aparentemente consegui.


filipaferreira 12-12-2007

Friday, 30 November 2007

cidade



Fora de mim, um mundo cheio de muralhas que não consigo transpor.
Tantas luzes no céu... e tantos interruptores longe do meu alcance.


Dentro dele, conjuntos de fronteiras que não se atravessam,
quilómetros de pensamentos que não se ultrapassam.
Países que não são mais do que o resumo de passagens,
que nunca chegámos a visitar.
Mas estão e são. Permanecem.


Do particular nasce a certeza. A certeza de existir, de querer.
As pontes sobre o rio ligam-me a ti, nessa cidade em que não te conheci.
As suas ruas estreitas aconchegam-me no caminho,
os candeeiros que não a iluminam engrandecem a luz tua em mim,
e o seu silêncio à noite aumenta o volume da tua voz.


Fora de mim, o mundo é o mundo. Só.


Dentro de mim, o país que visito a toda a hora.
Onde a esperança se encontra em todos os cantos,
e os gestos se tornam realidade.


E lá tu existes. Lá, ganhas todas as batalhas,
conheces todos os caminhos, descobres todos os segredos,
guardas ao promenor todas as passagens do tempo.


Lá, nessa cidade que ninguém habita a não seres tu,
as ruas estão desertas, e muitos dos caminhos estão ainda por pavimentar...


mas o teu nome está escrito por toda a parte...


No lá que é aqui... bem dentro de mim.



29-11-2007 filipaferreira