Sunday, 21 November 2010

gole

não te vejo há tanto tempo que mais parece que nunca te tive. não te sinto saudades porque te recordo sempre que me apetece, tantas vezes quantas bebo um café, ou mais. é engraçado como com o passar dos anos a idade vai pesando e parece que as memórias se desvanecem, os factos ficam ténues, as cores esbatidas. mas tu continuas a dar vida a flashes que permanecem intatos. não me pergunto porquê, nem me apetece. afinal o que interessa é sentirmo-nos vivos sem aquela rigidez de quem tem que produzir diáriamente "takes" que perduram. para quê? somos partes completamente completas de partes que nos compõem. é nessa melodia que balanceamos a vida. mergulho nela todos os dias. vivo todos os dias. posso-te dizer que grito no refrão das músicas, sinto-me mais livre.
estás portanto guardado naquela prateleira de bibelôs que vamos guardando sem saber muito bem porquê, mas graças aos quais vamos tendo sempre uma história ou outra para contar. é certo que já te troquei o lugar. já te escondi dentro do móvel, atrás de outro maior que tu. mas não sei se te encontro ou se te procuro. por isso deixei-me disso. pertences ao lugar que sempre foi teu. inteiramente digno de memórias vividas de uma forma tão real que me fazem sentir mais viva que vivendo a vida realmente. adoro café. e os cafés sabem-me sempre melhor quando te bebo com eles.

Sunday, 14 February 2010

tempo

Mostra-me essas fotografias que deixaste guardadas na última gaveta da tua secretaria. Diz-me o que ficaram lá a fazer se decidiste excluir-me do filme a cores.
Não as guardaste a sete chaves porque nunca fizeram parte desse tesouro que tens vindo a construir. Podias tê-las entregue ao vento, mas guardaste-as. Não sei se as esqueceste, se foi a gaveta que ficou para último, ou só os momentos a ficarem para trás. Não sei se um dia quando mudares de casa a levarás contigo, ou se ela ficará no mesmo lugar, mas sem a secretária, sem os móveis, sem os sofás, sem ti.
Nada disso me importa pois guardei-as comigo. Escondi-as. Tranquei-as, eu sim, em cofre seguro para nunca ceder à tentação de as ir buscar. Dizem que olhos que não vêm coração que não sente. Ainda senti uns tempos. Tempos demais.
Parei, sabes. Escondi-me também eu durante uns tempos dentro dessa gaveta. Não sei se na esperança de te encontrar, ou de me ir buscar quando me encontrasse a mim. Seja como for, teria preferido ficar na segunda ou na terceira gaveta, pelo menos enquanto estive lá dentro.
Fui buscá-las no mês passado para as recordar. Soube-me bem. As fotografias são a prova que os momentos aconteceram e que participámos neles. Deixámos de ser essa sucessão de momentos para passarmos a ser um amontoado de imagens inertes no tempo. E agora é só lá que nos cruzamos. Dentro dessa gaveta. Dentro do meu coração. Onde te entreguei ao esquecimento.


filipaferreira 14-02-10

Saturday, 16 January 2010

carta de amor # 1

guardei-te agora e para sempre. em momentos que não se esquecem e que não peço para voltarem. os vindouros serão ainda melhores. não preciso de me perguntar entre dentes "o que faço sem ti?", porque não faço nada. será assim a partir de agora. todas as perguntas terão respostas ainda mais fáceis, ou definitivamente fáceis, porque tudo se relativisa perante ti. se soubesse que era tudo tão mais feliz já te tinha ido buscar à mais tempo. o tempo. esse que antes passava devagar e agora passa rápido de mais. tanto ou mais rápido que um dia mais parece um mês e um mês mais parece um ano.
mas é assim o amor. o teu nome e apelido na minha história. para ti não existem apelos, frases feitas, ou livros de amor. nada "era uma vez". todos os dias, a cada dia, me fazes feliz para sempre. reescreveria a minha vida a giz sem a poder apagar, mas nunca tão bem.
faltam palavras para te falar, amor, para te escrever, amor. todos os momentos são perfeitos de mais. livres de mais. intensos de mais. sem resquícios de incondicionalismos. um "amo-te" não chega para descrever o que sinto. nem que a ele juntes infinitos muitos. em cada segundo da minha vida sou feliz. guardo-te em todos os meus "agoras". guardo-te hoje. e guardar-te-ei sempre. para sempre.


filipaferreira 16-01-2010

Saturday, 31 January 2009

início


Vejo-te lá ao fundo e já chamas por mim. Chamas pelo meu nome, gritas pelo meu ser. Alcanço-te sem te tocar. Tocas-me sem me possuíres. E somos unos. Conhecerei o teu cheiro de cor, todas as cores que decorarão os teus olhos, os traços que vão compor essa a melodia que entoarei até morrer. Desenharei contigo as árvores e as casas. Dar-lhes-ei cor. Ensinar-te-ei o caminho para lá chegares. Até lá, sou feliz assim. Porque te sinto. Porque te vejo lá ao fundo… bem dentro de mim.


filipaferreira 31-01-09

Tuesday, 2 December 2008

ponto de partida

Dá-me a mão e conduz-me de olhos fechados por onde achares que é o caminho. Falta-me a destreza para saber escolhê-lo e para saber escolhê-lo bem. Já te disse que não sinto as pernas e os meus pés estão gelados. O que me provoca arrepios na mente. Iguais aos que me provocas tu quando te sinto a meu lado. Faltam-me os significados das palavras, os contextos em que as inserir. Faltam-me os fios às meadas, as meadas, os começos. O ponto de partida. Aquele pelo qual ainda procuro indo quase a meio. Mas as histórias dizem que importante é encontrá-los. Não há tempo. Não há vida. Há entretantos e memórias. Entre eles e elas quase encontro essa ponta solta que me falta.

Por isso peço-te que me guies. Guia-me por esses caminhos que achas que serão os nossos, sei que os escolherás bem. Guia-me por essas linhas que serão a nossa história, sei que a escreverás bem. Pega na minha mão e mostra-me a ponta da meada que me falta. Não a meada. A ponta. O começo. Contigo, o fim.

filipaferreira 02-12-2008

Thursday, 23 October 2008

ser

Peço-te o silêncio que não me revelas. Aquele que nos fará crescer aos dois mesmo sem darmos por isso. Viaja sozinho que eu farei o mesmo. Sem aquele medo eterno de que o avião caia, e não estejas a meu lado. Foi isso que a vida me ensinou sem talvez nunca ter ido às aulas e ter faltado sempre no dia dos exames finais. Que não possuímos ninguém. Que não temos ninguém. E talvez só assim faça sentido. Porque os corpos não são nada mais que isso: a materialização do sentimento de posse. Sou muito mais do que aquilo que possuo. E aquilo que sou é o que os outros são, o que muitos deveriam ser. Um conjunto de seres que partilham valores mais altos que um papel assinado ou juras eternas. O que é eterno não se jura. Compromete-se e prova-se. Pelo sabor que tem o tempo que felizmente tarda em passar. Pelas horas que passam sem olharmos para o relógio, porque não importa nada para lá da redoma irreal em que estamos. Teremos tempo para viver, não para ser, e não para sermos juntos. Por isso sou o mundo e tudo o que ele contém. Porque o alcanço com a alma. Com a força de querer. E sou tudo sem ter nada. E sê-lo faz-me feliz. Partilhar a minha alma com a tua e saber que trago tudo de ti sem possuir nenhum dos dois corpos. E só assim sei que do ponto mais baixo do mundo, sem sequer me por em "bicos de pés", alcanço com o braço esticado a estrela mais elevada do céu.

filipaferreira 23-10-08

Friday, 26 September 2008

viagem

às vezes penso que vivemos dentro de quatro paredes. apagámos as luzes. escutamos o vento. perdemo-nos assim nesse lugar sem mobílias, tão cheio de espaço e preenchido por tudo ao mesmo tempo. mas não chegámos a acordo quanto à cor dos móveis ou os quadros para colocar na parede. não discutimos sequer sobre a cor dos sofás. não, tu não querias brancos. e eu talvez não quisesse também. não. não sei. talvez sejamos apenas o espelho no rio um do outro. talvez eu tenha simplesmente mudado de direcção o teu sinal de sentido obrigatório. e tu tenhas mudado de direcção o meu. e talvez só assim as coisas façam sentido.
mas o tempo passa tão bem sem senti-lo passar. e se ele passa eu passo com ele e tu passas comigo. passamos juntos. e juntos fazemo-lo passar sem darmos pela sua passagem. isso, agarra-me porque eu não fujo! mas faço-te fugir comigo nesta montanha de sentimentos que passam sem sair do mesmo lugar. passam-me à noite, e de dia com a luz apagada. gosto quando apagas as luzes e discutimos sobre a cor dos móveis que não temos. gosto quando viajamos em sonhos. tenho medo da viagem, mas tu seguras-me bem. e o tempo passa sem passar porque não me importo que ele passe. não me importo que a vida corra nem que escolhas umas cortinas da cor do céu. e talvez nem as quisesse. mas aceno com a cabeça quando me dizes que são as tuas preferidas. passam a ser as minhas também. afinal continuamos sem nada nestas paredes. quatro?! quero lá saber. são reais?! não interessa. escutar o vento parece-me bem. estar aqui sem mais nada senão tu parece-me melhor ainda. torna o momento mais real. e talvez só assim as coisas façam sentido. só assim farão.



filipaferreira 26-09-08