No desejo exasperado de um sopro,
cravo-te a lembrança doentia,
finco-te em tom de despedida,
despeço-me em memória de uma vida,
e finco-te outra vez.
Entrelaçam-se as horas na praça deserta,
de um tempo que deixou de avançar
quando os passos ainda se ouviam ao longe,
de tão perto que estavam da realidade…
e os pássaros voam, e as casas ardem,
e as nuvens avançavam no céu, e o chão da vida começa a ruir,
e a chuva abundantemente cai,
num solo que deixou há muito de ser alimentado.
Mas o vento traz as palavras,
(as que não disseste, as que não disse,
as que ficaram por dizer),
e finco-te uma última vez,
para as ver a enrolar no turbilhão de nadas,
morrer num atropelo de silêncios,
e desaparecer entre as inundações que ficaram,
sem nunca as termos colocado nas frases certas.
E agora compreendo,
porque no desejo exasperado de um sopro,
apenas me despeço das palavras que não dissemos,
lhes sorrio enquanto as vejo desaparecer,
filipaferreira 26-12-2006
