Tuesday, 26 December 2006

Atropelo de Silêncios

No desejo exasperado de um sopro,
cravo-te a lembrança doentia,
finco-te em tom de despedida,
despeço-me em memória de uma vida,
e finco-te outra vez.

Entrelaçam-se as horas na praça deserta,
de um tempo que deixou de avançar
quando os passos ainda se ouviam ao longe,
de tão perto que estavam da realidade…
e os pássaros voam, e as casas ardem,
e as nuvens avançavam no céu, e o chão da vida começa a ruir,
e a chuva abundantemente cai,
num solo que deixou há muito de ser alimentado.

Mas o vento traz as palavras,
(as que não disseste, as que não disse,
as que ficaram por dizer),
e finco-te uma última vez,
para as ver a enrolar no turbilhão de nadas,
morrer num atropelo de silêncios,
e desaparecer entre as inundações que ficaram,
sem nunca as termos colocado nas frases certas.

E agora compreendo,
porque no desejo exasperado de um sopro,
apenas me despeço das palavras que não dissemos,
lhes sorrio enquanto as vejo desaparecer,
e lhes digo adeus para sempre!

filipaferreira 26-12-2006

Wednesday, 20 December 2006

Onda que enrola

Nasce o som no ouvido da memória,
que aquece a música da vida
e enriquece a pureza do mundo que não é puro.
Adormecem nos meus braços as horas,
os dias parecem pequenos demais,
e a lua desvenda os segredos que a noite quer guardar.
A bravura da onda revela o que de bom a vida nos dá,
faz-nos por momentos imaginar como é boa a paz,
mas depressa nos tira o que não estamos preparados para perder:
Como seria boa a vida se o que vês não fosse meu,
o que tens não fosse teu,
e o que somos não fosse do mundo.
Mas o mar também se agita,
e a onda da vida enrola,
enrola as correntes mais profundas que existem dentro de nós,
e quase sempre a vida se perde no vazio que somos
até uma onda a trazer de volta à realidade…
Como seria bom se nunca nos conseguíssemos libertar das ondas,
para que elas nunca nos trouxessem à superfície da realidade.
Mas há sempre um preço a pagar pela música que o mar entoa,
que a vida escuta e os céus presenciam,
mas que os pobres de espírito deixam cair no esquecimento.
O preço é quase sempre viver uma vida sem cor,
morrer sem ouvir a sua melodia,
e nunca descobrir o significado da pureza da paz,
e da bravura dos sonhos…

filipaferreira 24-10-2004

Sunday, 17 December 2006

Grito


Gritam por mim as horas
de um espaço que ficou esquecido
há muito na tela do luar…

As páginas contam os minutos para poderem aparecer,
quem sabe na transparência do vento,
quem sabe no ruído de um sorriso,
quem sabe no orgulho de um momento
que ficou há muito esquecido…

As luzes passam a uma velocidade alucinante
nas horas que demoram frases a escrever,
nos minutos que demoram gritos a dar,
nos segundos que demoram os gritos para se fazerem ouvir,
de tão demorados que estão para aparecer.

E o fio da loucura continua ténue,
tão ténue como a implosão de um abraço na lembrança
de um mundo que de tão esquecido que está da hipérbole da vida,
se esqueceu de lembrar da memória esquecida
de um luar com mil cores a cinzento…

E as horas gritam, e os momentos passam,
e as luzes correm, e as horas fogem,
e os sorrisos ficam densamente acumulados
na força apaziguadora de um grito!

filipaferreira 17-12-2006

Wednesday, 13 December 2006

Olhar

Espero por ti ao virar da esquina… um olhar.

Corro na vastidão dos campos surdos, onde o vento não incendeia a mais pequena parte de mim que há neles, porque tudo em mim já arde.

As portas do fim do mundo parecem estar longe demais para aquilo que o meu olhar consegue suportar ver ruir à sua volta. Ainda assim, o caminho é desprovido de qualquer som, e até o brilho da noite se torna incandescente demais.

Nunca tudo me pareceu tão belo… as imagens apagadas da memória, a lembrança de uma voz lá ao longe já esquecida, a loucura de um trambolhão de sentimentos inesquecíveis, um olhar…

Mas as portas do incêndio esquecido dentro de mim fazem parte da última flor que ficou por arder. Tudo para trás são trilhos onde já nada que seja plantado pode ganhar vida, onde o mais pequeno som não pode ser ouvido, onde os olhares já se perderam há muito nas cinzas dos sorrisos… mas até no lugar da chama fria que o fogo ateado deixou em mim, depois das escadas de incêndio terem caído de rompante da minha sombra eloquente, existe e existirá sempre uma vastidão de campos surdos, onde por breves momentos fecho os olhos e me vejo a esperar por ti ao virar da esquina… onde os olhares se cruzam… e tudo em mim ainda arde…

filipaferreira 13-12-2006

Wednesday, 6 December 2006

LIBERDADE

Caminho pela penumbra da noite,
à descoberta da vida que um dia disseram que era minha.
Ainda me lembro dos meus dias de criança,
momentos em que mesmo estando sozinha,
conseguia mascarar a realidade,
e ver surgir por entre aguaceiros intensos,
a beleza do puro raiar do sol.
Hoje, acredito que o sol existe
no meio dos terríveis presságios, que são imensos,
porque a esperança que trago dentro de mim,
é mais do que uma vida,
maior do que o oceano mais profundo,
e mais triste do que a tristeza do mundo.
Não considero a minha revolta em vão,
porque a verdadeira bravura
não está apenas dentro de quem vence:
Transforma um corpo em coração,
e dá sentido à vida vivida...
E o rumo que se persegue só se alcança
na hora em que se percebe na verdade,
que viver não é respirar,
mas amar a gota de água que espreita,
sorrir para o desconhecido que vai a passar,
e lutar com autenticidade,
para que no dia em que o mundo se tornar um sítio melhor,
se poder gritar “LIBERDADE”!

filipaferreira 16-01-03

Dia Mundial da Amizade I


Hoje é dia Mundial da Amizade... não, não é... :)) Mas todos os dias o podem ser desde que para nós seja importante demonstrar as pessoas o quanto elas são importantes para nós.


“Se chegar um dia cinzento,
se crescerem nuvens no céu,
se chover infinitamente na Terra,
se o chão tremer debaixo dos teus pés.
Se os povos ficarem separados por fendas que crescem no solo,
se as pessoas chorarem sangue,
e se tu sentires que o mundo vai acabar…

Acabe o mundo ou não,
para onde quer que vás eu vou contigo,
e onde quer que estejas estarás comigo,
porque a tua vida na minha será eterna..." filipaferreira


A tua história não e a minha e a minha não e a tua. Mas quis o destino fazer com que a partir de um determinado momento elas se juntassem, para constituir aquilo que é uma das coisas mais importantes da minha vida… Obrigado por existires… hoje, e para sempre!!!!




Sunday, 3 December 2006

"Para Sempre"

Desenho os traços da roda viva que há em ti, e construo com eles um laço de emoções que exploram a forma como a minha pele ainda respira.

As ruas enchem-se de água, as casas ficam iluminadas de noite, há alguém que continua a vaguear nas ruas que já não são suas. O passeio da saudade enche-se de flores com cores e cheiros variados, que mais lembram o tempo em que os momentos ainda perduravam na eternidade, e todas as conversas acabavam com “para sempre”. Mas os rabiscos do sonho do crepúsculo depressa ofuscam o emaranhado de tons e sabores de um prato que nunca chegou a ser confeccionado ou que simplesmente deixamos esquecido no forno.

Tento recordar os momentos de felicidade, mas não me vejo neles. Ponho o filme dos traços que imaginei em ti mas nunca tos reconheci, e a cassete está em branco. Afinal o mar não estava assim tão revoltado, o céu não estava estrelado, a comida não soube bem. A nossa história não passou uma sucessão de aspirações a realidade, beijos a preto e branco, canções mal cantadas, eternidades frustradas… porque no final, neste pedaço de poema só consigo identificar o “era uma vez” e o “fim”.

Hoje, os traços da roda viva que foi este nada, nada me permitem desenhar, porque tudo não deixou de ser uma história de “para sempre” fictícios, que já não existiam muito antes da primeira vez em que foram ditos de verdade…

filipaferreira 30-11-06