
Assim me deixas, nestes abrigos ao inevitável. Numa casa encerrada a sete chaves, sem janelas, sem nada mais do que um pouco do resto de ar que escolhi para respirar. Uma respiração cortada em cores, como um arco-íris, que fizeste questão de separar em rasgões sem nexo nem sentido, sem corte nem medida.
Mas as curvas deste caminho não me embriagam. A embriaguez, essa sim, existiu quando tu ainda existias em mim. Quando os sorrisos pareciam não terminar e as pernas tremiam. Faz-me explodir os sentidos, sim, a ideia de ter que percorrê-lo sem te ter a meu lado. E no vagueio de uma tontura inebriante acordo lúcida de um sonho que nunca cheguei a ter. Uma lucidez que me estupidifica até à última ponta de cabelo e me corta o sorriso em quatro. As quatro linhas que traças-te, que pensei serem de um caminho com volta. Mas a seguir a uma volta veio outra, e a seguir a elas uma sucessão de voltas que me fizeram perder a capacidade de reorganizar esses pedaços de boca rasgada.
E por isso o meu conjunto desorganizado resume-se a um silêncio ensurdecedor de uma alma embriagada. Uma embriaguez que transformava sempre as curvas em caminhos concretos, porque eras tu a apontar-me a direcção, mas que hoje nada mais é que uma alma lúcida em ressaca. Por isso as curvas sucedem-se, e o meu percurso não se parece com nada mais, senão com vastidões de campos ameaçados por travagens bruscas de um ser partido em dois, em três, em tantos quanto o número de chaves com que me encerras-te neste céu sem sol.
Mas este caminho que percorro já não me embriaga mais do que a lucidez que me deixaste como recordação. E quem dera que eu não a visse a meu lado, aqui, nesta casa em que me vou separando em pedaços... pedaços meus que já não cabem em mim. E são eles, os pedaços rasgados de caminhos percorridos a teu lado, de sorrisos cortados, que quero aqui trancar, esses sim, a sete chaves. Sair deste buraco sem fundo, sem cor, e voltar a respirar o resultado de uma subtracção entre o ar do mundo e o ar que é o teu... e então, conseguir escapar à tortura de curvas sem volta deste meu caminho que existe porque tu já não existes nele. Porque não me embriaga a ideia de ter que o percorrer... mas deixa-me sem rumo a realidade concreta de ter que percorrê-lo sem ti...
filipaferreira 18-04-2007