
Precisava de saber se vou viver para sempre para atar de vez este nó na garganta, até lhe cortar o fôlego.
Estes silêncios afundam-me na minha própria fuga. Em caminhos que procurei e vidas que não fui. Em pessoas que passaram mas nunca estiveram. Umas que viveram. Outras que morreram. Outras que viveram tão depressa e desapareceram tão depressa, que mais parece que nunca passaram. Que nunca estiveram. Que nunca chegaram a ser.
Os sentidos não são as letras nem as frases. São as histórias. As curtas. As enviesadas. As omitidas. As francamente reveladas. As que não fazem sentido se não houver quem as transporte no tempo.
Pergunto-me hoje quais são as que transporto. Quem transportará a minha no amanhã. E perco tempo. Perco tempo enquanto penso. Enquanto me deixo submergir neste nó. Se ele é maior que eu?! Ele é maior que eu. Às vezes. Só as vezes. Enquanto deixo de respirar e penso na efemeridade das coisas. Na efemeridade de mim.
Portanto, acreditar que serei para sempre, que estarei para sempre, faz-me viver. Concretizar a ideia que sou um somatório de pessoas e não uma só.
Não moro aqui. Não estou aqui. Sou de todo o lado, e irei até onde me levarem. Transportem a minha história com o mesmo poder de pertença com que transporto a vossa. Unir-nos-emos naquele sítio que arremata a solidão em gomos por deixarmos de lhe pertencer. E a vida será nossa.
Até lá, não falo mais sobre isto. Recuso-me a acordar com “emes”, “és”, “dês” e “ós” na cabeça. Recuso-me a deixar de viver no momento em que permito que o resultado da sua soma seja maior que o poder que sempre terei de aumentar a minha. De aumentarmos a nossa. De viver.
filipaferreira 03-03-2008
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