Sunday, 3 August 2008

emes


Precisava de saber se vou viver para sempre para atar de vez este nó na garganta, até lhe cortar o fôlego.

Estes silêncios afundam-me na minha própria fuga. Em caminhos que procurei e vidas que não fui. Em pessoas que passaram mas nunca estiveram. Umas que viveram. Outras que morreram. Outras que viveram tão depressa e desapareceram tão depressa, que mais parece que nunca passaram. Que nunca estiveram. Que nunca chegaram a ser.

Os sentidos não são as letras nem as frases. São as histórias. As curtas. As enviesadas. As omitidas. As francamente reveladas. As que não fazem sentido se não houver quem as transporte no tempo.

Pergunto-me hoje quais são as que transporto. Quem transportará a minha no amanhã. E perco tempo. Perco tempo enquanto penso. Enquanto me deixo submergir neste nó. Se ele é maior que eu?! Ele é maior que eu. Às vezes. Só as vezes. Enquanto deixo de respirar e penso na efemeridade das coisas. Na efemeridade de mim.

Portanto, acreditar que serei para sempre, que estarei para sempre, faz-me viver. Concretizar a ideia que sou um somatório de pessoas e não uma só.

Não moro aqui. Não estou aqui. Sou de todo o lado, e irei até onde me levarem. Transportem a minha história com o mesmo poder de pertença com que transporto a vossa. Unir-nos-emos naquele sítio que arremata a solidão em gomos por deixarmos de lhe pertencer. E a vida será nossa.

Até lá, não falo mais sobre isto. Recuso-me a acordar com “emes”, “és”, “dês” e “ós” na cabeça. Recuso-me a deixar de viver no momento em que permito que o resultado da sua soma seja maior que o poder que sempre terei de aumentar a minha. De aumentarmos a nossa. De viver.


filipaferreira 03-03-2008

Wednesday, 2 July 2008

De olhos fechados

Chegaste de mansinho sem te anunciares. Não bateste a porta. Começaste por preencher os espaços que me faltavam. Decoraste o resto com “sei lá o quê”. Desarrumaste tudo.

Nunca te disse o que isso significou para mim. Nunca te falei dos passos que foste percorrendo sem sentires. E eu sem saber, os que fui percorrendo atrás de ti. De olhos fechados. Sempre de olhos fechados.

Porque se alguns dizem que o amor não se vê nem um palmo à frente do nariz, eu digo-te que o vejo de olhos fechados. Porque te vejo a ti quando os fecho. Vejo-te nas lembranças que somos e no futuro em que nos projecto.

Não sei se já te contei algum dos finais felizes que, de olhos fechados, já vivi por nós. Uma vida na qual só tu cabes. Que só tu sabes de cor.

Poder-te-ia contar um ou outro. Mas é isso o amor. Ansiar desesperadamente ver, ao abrir os olhos, quem desenhamos na perfeição de olhos fechados. E eu anseio muito. Muito.

Por isso não te conto nenhum. Porque prefiro viver-te até à exaustão a cada dia que passa. Inventar contigo novos sinónimos para a palavra “amor” e ter e certeza que só tu, e apenas tu, os saberás sempre de cor. Confirmar a cada dia que passa que é impossível que a vida me separe de ti, porque jamais nos podemos separar daquilo que somos.


Poder-te-ia contar um ou outro. Por isso não te conto nenhum. Porque para isso teria que te contar que todos começam e acabam da mesma maneira. Tu a chegares de mansinho sem te anunciares. E eu a rezar para que nunca mais te vás embora.


filipaferreira 02-07-2008

Sunday, 1 June 2008

tributo ao amor

Pensei que fosse mais fácil matar-te dentro de mim. Sufocar-te até não poder mais. Tirar-te o ar que me tiras tu a mim, e devolver-mo como prémio de consolação.

Mas canso-me mais agora. Muito mais do que quando possuías o meu corpo e dilaceravas a minha mente. Afinal sempre estava dependente dessa dependência que dominava o meu tempo.

Passam os dias, e sem perceber muito bem como e porquê, vou eu passando com eles. Um passar meio passeio depois da idade da reforma. Não espero por ti em lado nenhum porque não te deixei um papel com a minha morada, uma pista do meu número de telefone. Cansei-me de o fazer. Afinal, nunca vieste, nunca respondeste aos meus bilhetes, deixaste de me acenar na rua.

Morreram os tempos em que me deixava consumir pelo desejo de um beijo teu. Morreram aqueles em que me afogava na memória de uma presença tua. Morreram os meus agora que não estás.


Ainda não saí do mesmo sítio. Mas não espero por ti em lado nenhum. É melhor assim.

Lava-me, esfrega-me a pele. Limpa-me desse teu cheiro, da necessidade do teu corpo. Esfrega-me até não poderes mais, até fazer sangue, até deixar de ouvir a tua respiração, até o mundo deixar de ouvir a minha, não importa. Não importa o mundo. Não importa a vida. Não importa o tempo. Não importa tudo... porque não estás.


filipaferreira 01-06-2008


ao som de Citizen Erased - Hullabaloo, Muse

Thursday, 8 May 2008

momento 7|5


Porque me calas os sentidos num arrepio de pele

me inundas num sorriso que não controlo,

e me carregas contigo nesse mundo de elefantes e cores gigantes.

Um dia faço-te o rascunho do sentimento,

pinto-te a loucura do momento...

Hoje, ele preenche-me a mim.
filipaferreira 08-05-2008

Thursday, 24 April 2008

SIM

Perguntas-me como. Eu respondo-te "não sei". Não tencionava dirigir-te estas respostas vagas. Não queria iludir-te com meios termos. Lembro-me dos sonhos que tenho e escolho quais das partes não contar para que se realizem.

Na realidade encontrar-te-ia nesse vasto oceano em que me escondo eu. E perder-te-ia outra vez porque não me encontro a mim. Não estou ao virar da esquina. Não espero o pôr-do-sol numa esplanada do quiosque. Não guardo livros numa estante à espera que o tempo passe. Não os leio com medo que ele se esgote.

Por isso aqui estou eu a gastar o tempo que demora um cigarro a queimar. Outro. E isso não me assusta. Ver aparecer a cinza, expulsar-lhe o fumo, frente ao mar nesta janela de hotel. Ter-te aqui, nesses lençóis tão pouco brancos. Mas perto. Perto do alcance de um olhar.

Sei que me lês os pensamentos. Afinal já ocupei este lugar vezes demais para que não tivesses decorado a moral da história. Mas não hoje. Hoje decidi que fico. Fico até não poder mais. Fico até conseguir dizer que sim. Porque é sim. SIM. Fico para te abraçar. Fico para te ver ficar, ou partir primeiro. Fico porque não me escondo mais.

Acordas e estou a teu lado. A incredulidade não absorve a tua capacidade de previsão. Chamar-lhe-ia querer…

Perguntas-me:
-
Ficaste?!

Respondo-te:
- SIM. O mar hoje está bonito demais para que me consiga ir embora.



filipaferreira 24-04-2008

Sunday, 30 March 2008

suor

hoje sonhei contigo. navegavas no mundo dos meus sonhos com aquele à-vontade de quem tem as chaves de casa do mundo para entrar. aumentei o volume. adicionei-lhe cor. na limpidez de uma memória putrificada no tempo, as recordações bóiam no espaço de uma operação matemática em que o resultado és tu. porque me apareces assim?! nesses resquícios de pensamentos que não controlo?! nessa aparição fugaz que me inunda de desejo?! entro nesse carrossel de emoções sem medos nem resguardos. tenho medo que o tempo o leve. afinal, lá sou feliz. lá, compras-me nessa loja de antiguidades em que ninguém me quer, restauras-me, e colocas-me frente à janela que apanha mais sol na tua casa. não, não me vendo. não sou minha. não sou de ninguém. sou momentaneamente de quem me compra, de quem possuí o meu corpo. não tenho medo que me troques por algo de igual valor. não tenho medo que me devolvas no prazo de quinze dias ou um mês. sei o que valho. sei o que sou e não sou de ninguém. sou tua quando me possuís, quando fazemos amor. sou tua quando me levas à exaustão do prazer e me fazes suar em linhas sem parágrafos. sou tua enquanto navegas nessas marés de sonhos que me fazem delirar as entranhas. anseio o prazer. depois anseio-te a ti. serei talvez tua, se ninguém me tiver comprado antes, se me apareceres nas flutuações da vida. até lá sonho. vivo. deixo-te correr nas veias dos meus sonhos e não te peço para fechares a porta depois de entrares. fecho-a eu. chegas-me assim. nunca serei inteiramente tua. jamais eternamente de alguém. quero que fiques. quero que venças sempre o jogo nesse meu mundo dos sonhos. só lá. e apenas lá. chegas-me assim.


filipaferreira 30-03-2008

Tuesday, 11 March 2008

porquê.


quando procurei por ti já não estavas. e pensar que corri depois do trabalho para comprar os bolos e o chá de que tanto gostas. mas já me habituei a estas ausências em espaços aos quais nunca pertenceste. pertenceram-te eles, mesmo quando a tua presença não era mais do que uma esperança, um simples odor que reconstruía do que restou na minha memória do que foi em tempos o teu perfume. ponho o CD de música clássica, e enquanto o perscruto, vêem-me à memória as lembranças da tua roupa espalhada pelo chão, dos livros tão imprópriamente deixados em qualquer lugar, da toalha de banho molhada em cima da cama. todos os dias esperei por ti, e senão assim, em cada viagem de regresso a casa, rezava para poder encontrar toda esta desarrumação tão característica da tua presença. preferia tudo isto, mesmo quando me enfurecia. continuo a preferi-lo hoje. não me pertencem a mim este conjunto de silêncios que não encaixam neste espaço, de faltas de sentido na minha vida. pergunto-me hoje, se te tivesse dito tudo isto, se mudaria alguma coisa. afinal todo este vazio que carrego não é mais do que a desarrumação dos sentimentos contraditórios em que me tornei. não me questionas. eu respondo porquê. porquê hoje. porque é que ao fim de 20 anos de silêncios ensurdecedores, esperei por ti para lanchar. hoje, no trabalho, pediram-me para pintar o amor. deixei a tela em branco. porquê. menti... nunca me habituei à tua ausência. talvez por isso continue a procurar por ti neste espaço. encontro-te. porquê. porque sei que só a ti ele algum dia pertenceu.


filipaferreira 11-03-2008