Sunday, 24 June 2007

Para lá do silêncio

(Melides, 2007)

No silêncio de um suspiro que deixo para depois, olho atentamente para esta tela a óleo que temos vindo a pincelar dentro de nós.

Os múrmurios do vento trazem à lembrança tudo o que sem estar escrito, ficou gravado em mim.

Mas encontro-te aqui, onde o sol se põe muito antes de toda a luz em mim se apagar. Vejo-te aqui, neste recanto cheio de caroços de cerejas amontoados, que jogámos não importa para onde, desde que juntos. E anseio-te com a mesma força com que consigo abrir os olhos e vislumbrar-te, mesmo quando não estás.

Sinto-te, guardo-te, como quem guarda o maior tesouro da vida. Deixo a liberdade de ti viver nesse jardim em que nasceste, mas roubo-te um pedaço que planto no jardim que é o meu. E lá passas de carne crua a alma viva... Lá, sinto-te sem te tocar, e todos os odores se resumem a esse perfume tão teu, que já é meu também.

E como o meu olhar fica a preto e branco quando não estás e as músicas são substituídas por sons indecifráveis... que faz lembrar o agudizar de um silencio que se repete sem se ouvir a ele próprio.

Então sento-me e espero por ti. Aqui, onde não há tempo, paragens de autocarro e bilhetes para comprar. Porque sei que para lá do sol, está o nosso caminho.

Por isso, sinto-te, cheiro-te, guardo-te ainda mais dentro de mim.
Abro os olhos com a mesma força com que te desejo.. e no silêncio de um olhar, tu levas-me... e eu levo-te comigo.


filipaferreira 19-07-07

eco



Queria ouvir de ti o que não disseste, o que se perdeu...


Ouço a letra da música que me cantaste em surdina, e vou bebendo em goles este chá de ervas que me envenena aos bocadinhos.
Sou um corpo sem alma que se escuta, sem ouvir nada no eco de si.


As minhas mãos vazias deixam ainda mais árido este deserto em que me tornei. Pegam na caneta e não antevêem nenhum parágrafo, nenhuma palavra... com tanto que tenho para dizer.

Apetece-me saltar deste barco naufragado neste azul imenso, e esperar que alguém me salve.
Recordar todos os momentos e deixar que o meu livro de memórias seja esborratado por uma chávena de chá que lhe derramem em cima, sem que tenha que ser eu a bebê-lo... Dançarei esta dança, sim, desde que sejas tu a pedir a minha mão da próxima vez... navegarei nos teus braços, juro, como se se tratasse da última dança da minha vida, e prometo não me atirar jamais deste azul imenso para o barco naufragado em que estou.

Mas até lá, encontro-me sentada à beira rio a ver-me passar. Tento abraçar o tempo e recuperar os risos, os momentos, mas o teu perfume já não é nada mais senão uma composição de fragrâncias que decorei mas que já não sei reunir em conjunto... e eu um fragmento de ti. Puxo até mim a lembrança, como se te apertasse junto ao meu peito, mas no desfazer de um abraço encontro-me novamente a mim.

Leva-me o medo de viver da mesma forma que levaste o de morrer quando voaste para longe!.. para um longe tão perto que ter-te aqui é quase uma constante.

Já fui dona de castelos, encabecei frentes de batalha, lutei contra monstros terríveis, venci mares e tempestades, em sonhos e por ti. Faria tudo de novo.
Hoje sou um corpo sem alma sem ecos, que apenas vê a vida passar no lado mais profundo de si...


filipa ferreira 24-06-2007

Thursday, 7 June 2007

Preciso sonhar



Preciso sonhar…


Ir ao fundo do saco buscar a boneca de trapos,
(cantarolar-te uns ais ao ouvido
Rodopiar, rodopiar, e mais rodopiar
),
e trazer também a capacidade de sonhar
que aparecia sempre que brincava com ela.

Correr pelos campos, cair neles, e acordar cansada,
(cansada de fugir dos tempos em que já não sonho),
entontecer de dançar contigo, sozinha, com os outros,
entontecer, entontecer e mais entontecer,
rodopiar, entontecer e mais rodopiar.
(Preciso sonhar…)
Abrir-te os braços, assustar-me com o sorriso
que me perseguia quando ainda sonhava
com a loucura dos momentos que o amanhã me podia trazer…
Como quem sonha vir a sonhar grandemente um dia.
(E o que é o sonho senão um rodopio de esperanças
que nos entontece até nos deixarmos cair…
).
Sentir os passos de magia entre as dunas,
ver aparecer entre a bruma o por do sol ao amanhecer,
(Preciso sonhar!!!!)
apagar as pegadas deixadas na areia, guardá-las comigo,
e voltar a colocá-las no caminho da luz…
e também pode ser dos cheiros, dos abraços, dos beijinhos
(ai os beijinhos!),
das cores, do esquecimento que significa o ponto final que se segue
(não me apeteceu, porque os pontos finais não nos deixam sonhar… )
Acordar, espreguiçar-me depois de um longo sonho
(que não conto!),
ver a luz do dia, olhar para o céu e espreitar o mar…
rodopiar, rodopiar e mais rodopiar,
entontecer, entontecer e mais entontecer
até cair cansada, exasperada, feliz,
só por poder sonhar outra vez… e mais uma vez outra vez…

Preciso sonhar…
filipaferreira 02-02-2007

Wednesday, 30 May 2007

Pés na areia



Porque há coisas simples que nos fazem recordar coisas que viajam sempre connosco por toda a parte, toda a vida...

E que tudo saiba sempre assim tão bem... como pés na areia...

Saturday, 26 May 2007

Qual é o tamanho da lua?!


Danço contigo ao sabor do vento uma música que me embala a alma.


O mundo deixa de existir,a minha vida sobe ao céu numa bola de sabão, e eu fico aqui contigo... onde as palavras personificam sentimentos que parecem intemporais num tempo que parece estar parado.


Como pode o tempo parar quando eu viajo dentro de mim a uma velocidade alucinante neste caminho que é também o teu?! E estar neste banho maria é tão estontiante, que o tempo estar parado ou não é quase o mesmo.


Sabes, quem dá valor às coisas simples da vida, acredita nestas coisas. Que os "para sempre" da vida são feitos de brilhos partilhados no olhar, de abraços que se desejam e são dados sem termos que pedir, da intensidade com que se vivem os momentos em que o tempo parece parar, da felicidade de terem o mesmo sentido as pegadas que deixamos gravadas na areia da praia.


E aqui estou eu, no meio destes embalos que a verdade do teu "eu" em mim me faz ter. Por isso eu danço, danço, e mais dançar me faz escutar o eco desta música através de tempos que ainda não vivi. A certeza que tenho?! Pô-la em repeat sempre até que o mar se canse de correr para terra.


Se gosto de ti?!

............................... do tamanho da lua...
.
.
filipaferreira 26-05-2007

Saturday, 5 May 2007

Ventos



Beijo os cantos de um lume apagado, e sinto-me eu meia fria meia bamba. Um bamboleio de vai-véns num corpo morto que fazem ouvir em repeat o refrão desta música que me adormece.

E tudo parece de novo tão distante. A distância de uma mão que não se agarra, de um corpo que caí. A distância de uma imagem lá ao longe, até ela meia turva, meia perdida. E os sentidos ficam secos de vida de um momento para o outro. Uma secura que me consome em lume brando sem que nenhuma onda de vento lhe consiga penetrar.

Mas os ventos também se agitam, também nos agitam. Criam luzes no escuro de uma madrugada sombria, acompanhadas de assobios lentos de notas de música que parecemos reconhecer de qualquer lado. Mas quando tentamos agarrar a imagem que está para lá do denso nevoeiro da nossa alma, é o vento fazer-nos rodopiar numa dança estonteante de sentidos perdidos no teatro da vida.

E ali estou eu, no meio de mim e de um nevoeiro que me faz bambolear neste vai-vém de antagonismos catastróficos. Que me faz temer a parte de mim que anseia que a velocidade dos ventos se intensifiquem, para ficar de novo mais perto da imagem que está para lá da bruma de cores cinzentas.

Mas tudo é de repente tão desfocado como concreto. A viagem de idas e voltas desesperadas repete-se, sem ter comprado pacotes de bilhetes em promoção, e eu não pareço nada mais do que um boneco de trapos que vai envelhecendo à medida que os ventos vão e vêm. E nada fica retido em mim destes quilómetros que faço sem sair do mesmo lugar. Apenas uma cabeça aos turbilhões, um corpo que espera uma ambulância que não chega, uma vida presa por um fio que nem se enrola nem desprende.

E os bamboleios vão e vêm, o meu corpo fica e vai... A distância viajou a anos-luz para longe de mim e eu fiz viagem com ela. E nada nunca me pareceu tão distante... a distância inatingível de uma alma que está longe demais para que eu a consiga alcançar... e com ela bamboleio eu, num vai-vém que vai mas não volta...


filipaferreira 05-05-2007

Sunday, 29 April 2007

Bocadinho de vida



Passa o outro lado do ser e vê se existes, dentro do pequeno ser que julgas ser grande, dentro da grandeza que é a pequenez da tua incultivada alma. Procura a luz da incompletude que é na vida o mais simples que há em ti e nos outros. Alcança o pó que só tu és na terra, e dá-te a cada sopro de vida que for também teu, ou que ames como se fosse. Usa as palavras quantas vezes quiseres até reconheceres que o silêncio já diz tanto ou mais que elas. E quando conseguires um bocadinho disto tudo com o bocadinho de nada que és… podes começar a viver!
Porque não há vida que caiba na vida sem nada disto!
filipaferreira 29-12-2006