Dá-me a mão e conduz-me de olhos fechados por onde achares que é o caminho. Falta-me a destreza para saber escolhê-lo e para saber escolhê-lo bem. Já te disse que não sinto as pernas e os meus pés estão gelados. O que me provoca arrepios na mente. Iguais aos que me provocas tu quando te sinto a meu lado. Faltam-me os significados das palavras, os contextos em que as inserir. Faltam-me os fios às meadas, as meadas, os começos. O ponto de partida. Aquele pelo qual ainda procuro indo quase a meio. Mas as histórias dizem que importante é encontrá-los. Não há tempo. Não há vida. Há entretantos e memórias. Entre eles e elas quase encontro essa ponta solta que me falta.
Por isso peço-te que me guies. Guia-me por esses caminhos que achas que serão os nossos, sei que os escolherás bem. Guia-me por essas linhas que serão a nossa história, sei que a escreverás bem. Pega na minha mão e mostra-me a ponta da meada que me falta. Não a meada. A ponta. O começo. Contigo, o fim.
filipaferreira 02-12-2008
Tuesday, 2 December 2008
Thursday, 23 October 2008
ser
Peço-te o silêncio que não me revelas. Aquele que nos fará crescer aos dois mesmo sem darmos por isso. Viaja sozinho que eu farei o mesmo. Sem aquele medo eterno de que o avião caia, e não estejas a meu lado. Foi isso que a vida me ensinou sem talvez nunca ter ido às aulas e ter faltado sempre no dia dos exames finais. Que não possuímos ninguém. Que não temos ninguém. E talvez só assim faça sentido. Porque os corpos não são nada mais que isso: a materialização do sentimento de posse. Sou muito mais do que aquilo que possuo. E aquilo que sou é o que os outros são, o que muitos deveriam ser. Um conjunto de seres que partilham valores mais altos que um papel assinado ou juras eternas. O que é eterno não se jura. Compromete-se e prova-se. Pelo sabor que tem o tempo que felizmente tarda em passar. Pelas horas que passam sem olharmos para o relógio, porque não importa nada para lá da redoma irreal em que estamos. Teremos tempo para viver, não para ser, e não para sermos juntos. Por isso sou o mundo e tudo o que ele contém. Porque o alcanço com a alma. Com a força de querer. E sou tudo sem ter nada. E sê-lo faz-me feliz. Partilhar a minha alma com a tua e saber que trago tudo de ti sem possuir nenhum dos dois corpos. E só assim sei que do ponto mais baixo do mundo, sem sequer me por em "bicos de pés", alcanço com o braço esticado a estrela mais elevada do céu.
filipaferreira 23-10-08
filipaferreira 23-10-08
Friday, 26 September 2008
viagem
às vezes penso que vivemos dentro de quatro paredes. apagámos as luzes. escutamos o vento. perdemo-nos assim nesse lugar sem mobílias, tão cheio de espaço e preenchido por tudo ao mesmo tempo. mas não chegámos a acordo quanto à cor dos móveis ou os quadros para colocar na parede. não discutimos sequer sobre a cor dos sofás. não, tu não querias brancos. e eu talvez não quisesse também. não. não sei. talvez sejamos apenas o espelho no rio um do outro. talvez eu tenha simplesmente mudado de direcção o teu sinal de sentido obrigatório. e tu tenhas mudado de direcção o meu. e talvez só assim as coisas façam sentido.
mas o tempo passa tão bem sem senti-lo passar. e se ele passa eu passo com ele e tu passas comigo. passamos juntos. e juntos fazemo-lo passar sem darmos pela sua passagem. isso, agarra-me porque eu não fujo! mas faço-te fugir comigo nesta montanha de sentimentos que passam sem sair do mesmo lugar. passam-me à noite, e de dia com a luz apagada. gosto quando apagas as luzes e discutimos sobre a cor dos móveis que não temos. gosto quando viajamos em sonhos. tenho medo da viagem, mas tu seguras-me bem. e o tempo passa sem passar porque não me importo que ele passe. não me importo que a vida corra nem que escolhas umas cortinas da cor do céu. e talvez nem as quisesse. mas aceno com a cabeça quando me dizes que são as tuas preferidas. passam a ser as minhas também. afinal continuamos sem nada nestas paredes. quatro?! quero lá saber. são reais?! não interessa. escutar o vento parece-me bem. estar aqui sem mais nada senão tu parece-me melhor ainda. torna o momento mais real. e talvez só assim as coisas façam sentido. só assim farão.
filipaferreira 26-09-08
mas o tempo passa tão bem sem senti-lo passar. e se ele passa eu passo com ele e tu passas comigo. passamos juntos. e juntos fazemo-lo passar sem darmos pela sua passagem. isso, agarra-me porque eu não fujo! mas faço-te fugir comigo nesta montanha de sentimentos que passam sem sair do mesmo lugar. passam-me à noite, e de dia com a luz apagada. gosto quando apagas as luzes e discutimos sobre a cor dos móveis que não temos. gosto quando viajamos em sonhos. tenho medo da viagem, mas tu seguras-me bem. e o tempo passa sem passar porque não me importo que ele passe. não me importo que a vida corra nem que escolhas umas cortinas da cor do céu. e talvez nem as quisesse. mas aceno com a cabeça quando me dizes que são as tuas preferidas. passam a ser as minhas também. afinal continuamos sem nada nestas paredes. quatro?! quero lá saber. são reais?! não interessa. escutar o vento parece-me bem. estar aqui sem mais nada senão tu parece-me melhor ainda. torna o momento mais real. e talvez só assim as coisas façam sentido. só assim farão.
filipaferreira 26-09-08
Sunday, 31 August 2008
encontro
Não perco os momentos. Perdem-me antes eles a mim. Sou mais veloz que a sua velocidade e caminho à frente do seu futuro.
Por isso não desisto. Porque queimam em mim as cinzas que vão ficando para trás, e os passos que não ficaram por dar. Porque não perdi nada. Nunca nada até agora.
Assim me sento nesse café à hora combinada. Sem esperar nada nem ninguém. Sem medo de ler os jornais que estarão ocupados, de beber o café que chegou cheio demais. Sem medo de ninguém ocupar nenhuma das cadeiras que ficou vaga para ninguém.
E afinal sempre é como disseste que seria. O momento, que acredito ser este.
Falaste-me em liberdade. A liberdade do amor. O dia em que mergulharemos no mar e os nossos corpos não hão-de gelar. Porque a temperatura que nos une será superior.
E assim o é. Sou livre. A minha alma segue-te a cada passo que o nosso amor dá. Somos um do outro sem nos possuirmos. E por isso podemos marcar encontros sem estarmos presentes. Sinto-me livre assim. Com a certeza que estarás à hora marcada. Porque te sinto e te sei presente. Mesmo se não estás.
filipaferreira 31-08-2008
Por isso não desisto. Porque queimam em mim as cinzas que vão ficando para trás, e os passos que não ficaram por dar. Porque não perdi nada. Nunca nada até agora.
Assim me sento nesse café à hora combinada. Sem esperar nada nem ninguém. Sem medo de ler os jornais que estarão ocupados, de beber o café que chegou cheio demais. Sem medo de ninguém ocupar nenhuma das cadeiras que ficou vaga para ninguém.
E afinal sempre é como disseste que seria. O momento, que acredito ser este.
Falaste-me em liberdade. A liberdade do amor. O dia em que mergulharemos no mar e os nossos corpos não hão-de gelar. Porque a temperatura que nos une será superior.
E assim o é. Sou livre. A minha alma segue-te a cada passo que o nosso amor dá. Somos um do outro sem nos possuirmos. E por isso podemos marcar encontros sem estarmos presentes. Sinto-me livre assim. Com a certeza que estarás à hora marcada. Porque te sinto e te sei presente. Mesmo se não estás.
filipaferreira 31-08-2008
Friday, 8 August 2008
linhas direitas #1
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Preciso de te encostar ao meu peito para que oiças o batimento do meu coração. Para sentires como ele corre por ti e quase pára quando não estás. Preciso de te sentir seguro e segurar-me contigo, porque a viagem é longa. E eu quero chegar lá. Quero muito. Seja lá onde isso for. Quero chegar lá contigo.
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filipaferreira 08-08-08
Sunday, 3 August 2008
emes

Precisava de saber se vou viver para sempre para atar de vez este nó na garganta, até lhe cortar o fôlego.
Estes silêncios afundam-me na minha própria fuga. Em caminhos que procurei e vidas que não fui. Em pessoas que passaram mas nunca estiveram. Umas que viveram. Outras que morreram. Outras que viveram tão depressa e desapareceram tão depressa, que mais parece que nunca passaram. Que nunca estiveram. Que nunca chegaram a ser.
Os sentidos não são as letras nem as frases. São as histórias. As curtas. As enviesadas. As omitidas. As francamente reveladas. As que não fazem sentido se não houver quem as transporte no tempo.
Pergunto-me hoje quais são as que transporto. Quem transportará a minha no amanhã. E perco tempo. Perco tempo enquanto penso. Enquanto me deixo submergir neste nó. Se ele é maior que eu?! Ele é maior que eu. Às vezes. Só as vezes. Enquanto deixo de respirar e penso na efemeridade das coisas. Na efemeridade de mim.
Portanto, acreditar que serei para sempre, que estarei para sempre, faz-me viver. Concretizar a ideia que sou um somatório de pessoas e não uma só.
Não moro aqui. Não estou aqui. Sou de todo o lado, e irei até onde me levarem. Transportem a minha história com o mesmo poder de pertença com que transporto a vossa. Unir-nos-emos naquele sítio que arremata a solidão em gomos por deixarmos de lhe pertencer. E a vida será nossa.
Até lá, não falo mais sobre isto. Recuso-me a acordar com “emes”, “és”, “dês” e “ós” na cabeça. Recuso-me a deixar de viver no momento em que permito que o resultado da sua soma seja maior que o poder que sempre terei de aumentar a minha. De aumentarmos a nossa. De viver.
filipaferreira 03-03-2008
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