Wednesday, 11 July 2012

Tenho muitas coisas para te dizer. Mas não saem. Afinal já te escrevi muito, e há muito tempo. Não sei se me lês-te, ou se reconheces-te as minhas palavras em ti.


Acho que não ficaram muitas palavras por dizer. Mas há coisas que simplesmente devem ser ditas vezes sem conta, sob pena não serem compreendidas, ou esquecidas.

 
Parece-me que te esqueceste da nossa história. Daquela que página após página nos faz estar aqui hoje. Não acho incompreensível porque já passou muito tempo. Fomos felizes há muito tempo atrás, lutámos juntos contra a adversidade à muito tempo atrás, selámos juras de amor à muito tempo atrás. Naquela altura talvez fossemos só os dois a lutar contra o mundo. Naquela altura talvez fossemos muito fortes e determinados. Ou então naquela fomos obrigados a lutar. Terá sido a força do amor que nos empurrou? Eu própria não percebo se os momentos que passamos hoje é porque há alguém a obrigar-nos a desistir, ou se somos nós que nos esquecemos diariamente de nos olhar nos olhos, para nos lembrarmos que ainda nos conhecemos, que ainda somos amigos e amantes.

Às vezes torna-se impossível continuar. Porque os corpos estagnam no tempo e no espaço. Eu não compreendo porquê. Falta-me a clareza de espírito para decifrar a chave do amor. Não tenho uma ou duas coisas para te dizer. Tenho muitas. Quero reler-te os textos que te escrevi. Os poemas que te recitei. As juras de amor que proferi. Talvez se tivesses lido aquele mail, naquele dia, hoje fosse tudo diferente. Mas em vez, preferiste dizer que ainda não tinhas tido tempo.


No amor, e para o amor é preciso tempo. Não sei se te esqueceste disso também.


11 de Julho de 2012

Sunday, 21 November 2010

gole

não te vejo há tanto tempo que mais parece que nunca te tive. não te sinto saudades porque te recordo sempre que me apetece, tantas vezes quantas bebo um café, ou mais. é engraçado como com o passar dos anos a idade vai pesando e parece que as memórias se desvanecem, os factos ficam ténues, as cores esbatidas. mas tu continuas a dar vida a flashes que permanecem intatos. não me pergunto porquê, nem me apetece. afinal o que interessa é sentirmo-nos vivos sem aquela rigidez de quem tem que produzir diáriamente "takes" que perduram. para quê? somos partes completamente completas de partes que nos compõem. é nessa melodia que balanceamos a vida. mergulho nela todos os dias. vivo todos os dias. posso-te dizer que grito no refrão das músicas, sinto-me mais livre.
estás portanto guardado naquela prateleira de bibelôs que vamos guardando sem saber muito bem porquê, mas graças aos quais vamos tendo sempre uma história ou outra para contar. é certo que já te troquei o lugar. já te escondi dentro do móvel, atrás de outro maior que tu. mas não sei se te encontro ou se te procuro. por isso deixei-me disso. pertences ao lugar que sempre foi teu. inteiramente digno de memórias vividas de uma forma tão real que me fazem sentir mais viva que vivendo a vida realmente. adoro café. e os cafés sabem-me sempre melhor quando te bebo com eles.

Sunday, 14 February 2010

tempo

Mostra-me essas fotografias que deixaste guardadas na última gaveta da tua secretaria. Diz-me o que ficaram lá a fazer se decidiste excluir-me do filme a cores.
Não as guardaste a sete chaves porque nunca fizeram parte desse tesouro que tens vindo a construir. Podias tê-las entregue ao vento, mas guardaste-as. Não sei se as esqueceste, se foi a gaveta que ficou para último, ou só os momentos a ficarem para trás. Não sei se um dia quando mudares de casa a levarás contigo, ou se ela ficará no mesmo lugar, mas sem a secretária, sem os móveis, sem os sofás, sem ti.
Nada disso me importa pois guardei-as comigo. Escondi-as. Tranquei-as, eu sim, em cofre seguro para nunca ceder à tentação de as ir buscar. Dizem que olhos que não vêm coração que não sente. Ainda senti uns tempos. Tempos demais.
Parei, sabes. Escondi-me também eu durante uns tempos dentro dessa gaveta. Não sei se na esperança de te encontrar, ou de me ir buscar quando me encontrasse a mim. Seja como for, teria preferido ficar na segunda ou na terceira gaveta, pelo menos enquanto estive lá dentro.
Fui buscá-las no mês passado para as recordar. Soube-me bem. As fotografias são a prova que os momentos aconteceram e que participámos neles. Deixámos de ser essa sucessão de momentos para passarmos a ser um amontoado de imagens inertes no tempo. E agora é só lá que nos cruzamos. Dentro dessa gaveta. Dentro do meu coração. Onde te entreguei ao esquecimento.


filipaferreira 14-02-10

Saturday, 16 January 2010

carta de amor # 1

guardei-te agora e para sempre. em momentos que não se esquecem e que não peço para voltarem. os vindouros serão ainda melhores. não preciso de me perguntar entre dentes "o que faço sem ti?", porque não faço nada. será assim a partir de agora. todas as perguntas terão respostas ainda mais fáceis, ou definitivamente fáceis, porque tudo se relativisa perante ti. se soubesse que era tudo tão mais feliz já te tinha ido buscar à mais tempo. o tempo. esse que antes passava devagar e agora passa rápido de mais. tanto ou mais rápido que um dia mais parece um mês e um mês mais parece um ano.
mas é assim o amor. o teu nome e apelido na minha história. para ti não existem apelos, frases feitas, ou livros de amor. nada "era uma vez". todos os dias, a cada dia, me fazes feliz para sempre. reescreveria a minha vida a giz sem a poder apagar, mas nunca tão bem.
faltam palavras para te falar, amor, para te escrever, amor. todos os momentos são perfeitos de mais. livres de mais. intensos de mais. sem resquícios de incondicionalismos. um "amo-te" não chega para descrever o que sinto. nem que a ele juntes infinitos muitos. em cada segundo da minha vida sou feliz. guardo-te em todos os meus "agoras". guardo-te hoje. e guardar-te-ei sempre. para sempre.


filipaferreira 16-01-2010

Saturday, 31 January 2009

início


Vejo-te lá ao fundo e já chamas por mim. Chamas pelo meu nome, gritas pelo meu ser. Alcanço-te sem te tocar. Tocas-me sem me possuíres. E somos unos. Conhecerei o teu cheiro de cor, todas as cores que decorarão os teus olhos, os traços que vão compor essa a melodia que entoarei até morrer. Desenharei contigo as árvores e as casas. Dar-lhes-ei cor. Ensinar-te-ei o caminho para lá chegares. Até lá, sou feliz assim. Porque te sinto. Porque te vejo lá ao fundo… bem dentro de mim.


filipaferreira 31-01-09

Tuesday, 2 December 2008

ponto de partida

Dá-me a mão e conduz-me de olhos fechados por onde achares que é o caminho. Falta-me a destreza para saber escolhê-lo e para saber escolhê-lo bem. Já te disse que não sinto as pernas e os meus pés estão gelados. O que me provoca arrepios na mente. Iguais aos que me provocas tu quando te sinto a meu lado. Faltam-me os significados das palavras, os contextos em que as inserir. Faltam-me os fios às meadas, as meadas, os começos. O ponto de partida. Aquele pelo qual ainda procuro indo quase a meio. Mas as histórias dizem que importante é encontrá-los. Não há tempo. Não há vida. Há entretantos e memórias. Entre eles e elas quase encontro essa ponta solta que me falta.

Por isso peço-te que me guies. Guia-me por esses caminhos que achas que serão os nossos, sei que os escolherás bem. Guia-me por essas linhas que serão a nossa história, sei que a escreverás bem. Pega na minha mão e mostra-me a ponta da meada que me falta. Não a meada. A ponta. O começo. Contigo, o fim.

filipaferreira 02-12-2008

Thursday, 23 October 2008

ser

Peço-te o silêncio que não me revelas. Aquele que nos fará crescer aos dois mesmo sem darmos por isso. Viaja sozinho que eu farei o mesmo. Sem aquele medo eterno de que o avião caia, e não estejas a meu lado. Foi isso que a vida me ensinou sem talvez nunca ter ido às aulas e ter faltado sempre no dia dos exames finais. Que não possuímos ninguém. Que não temos ninguém. E talvez só assim faça sentido. Porque os corpos não são nada mais que isso: a materialização do sentimento de posse. Sou muito mais do que aquilo que possuo. E aquilo que sou é o que os outros são, o que muitos deveriam ser. Um conjunto de seres que partilham valores mais altos que um papel assinado ou juras eternas. O que é eterno não se jura. Compromete-se e prova-se. Pelo sabor que tem o tempo que felizmente tarda em passar. Pelas horas que passam sem olharmos para o relógio, porque não importa nada para lá da redoma irreal em que estamos. Teremos tempo para viver, não para ser, e não para sermos juntos. Por isso sou o mundo e tudo o que ele contém. Porque o alcanço com a alma. Com a força de querer. E sou tudo sem ter nada. E sê-lo faz-me feliz. Partilhar a minha alma com a tua e saber que trago tudo de ti sem possuir nenhum dos dois corpos. E só assim sei que do ponto mais baixo do mundo, sem sequer me por em "bicos de pés", alcanço com o braço esticado a estrela mais elevada do céu.

filipaferreira 23-10-08

Friday, 26 September 2008

viagem

às vezes penso que vivemos dentro de quatro paredes. apagámos as luzes. escutamos o vento. perdemo-nos assim nesse lugar sem mobílias, tão cheio de espaço e preenchido por tudo ao mesmo tempo. mas não chegámos a acordo quanto à cor dos móveis ou os quadros para colocar na parede. não discutimos sequer sobre a cor dos sofás. não, tu não querias brancos. e eu talvez não quisesse também. não. não sei. talvez sejamos apenas o espelho no rio um do outro. talvez eu tenha simplesmente mudado de direcção o teu sinal de sentido obrigatório. e tu tenhas mudado de direcção o meu. e talvez só assim as coisas façam sentido.
mas o tempo passa tão bem sem senti-lo passar. e se ele passa eu passo com ele e tu passas comigo. passamos juntos. e juntos fazemo-lo passar sem darmos pela sua passagem. isso, agarra-me porque eu não fujo! mas faço-te fugir comigo nesta montanha de sentimentos que passam sem sair do mesmo lugar. passam-me à noite, e de dia com a luz apagada. gosto quando apagas as luzes e discutimos sobre a cor dos móveis que não temos. gosto quando viajamos em sonhos. tenho medo da viagem, mas tu seguras-me bem. e o tempo passa sem passar porque não me importo que ele passe. não me importo que a vida corra nem que escolhas umas cortinas da cor do céu. e talvez nem as quisesse. mas aceno com a cabeça quando me dizes que são as tuas preferidas. passam a ser as minhas também. afinal continuamos sem nada nestas paredes. quatro?! quero lá saber. são reais?! não interessa. escutar o vento parece-me bem. estar aqui sem mais nada senão tu parece-me melhor ainda. torna o momento mais real. e talvez só assim as coisas façam sentido. só assim farão.



filipaferreira 26-09-08

Sunday, 31 August 2008

encontro

Não perco os momentos. Perdem-me antes eles a mim. Sou mais veloz que a sua velocidade e caminho à frente do seu futuro.

Por isso não desisto. Porque queimam em mim as cinzas que vão ficando para trás, e os passos que não ficaram por dar. Porque não perdi nada. Nunca nada até agora.

Assim me sento nesse café à hora combinada. Sem esperar nada nem ninguém. Sem medo de ler os jornais que estarão ocupados, de beber o café que chegou cheio demais. Sem medo de ninguém ocupar nenhuma das cadeiras que ficou vaga para ninguém.

E afinal sempre é como disseste que seria. O momento, que acredito ser este.

Falaste-me em liberdade. A liberdade do amor. O dia em que mergulharemos no mar e os nossos corpos não hão-de gelar. Porque a temperatura que nos une será superior.

E assim o é. Sou livre. A minha alma segue-te a cada passo que o nosso amor dá. Somos um do outro sem nos possuirmos. E por isso podemos marcar encontros sem estarmos presentes. Sinto-me livre assim. Com a certeza que estarás à hora marcada. Porque te sinto e te sei presente. Mesmo se não estás.


filipaferreira 31-08-2008

free click #1






( Fotos by filipaferreira. Todos os direitos reservados)



Friday, 8 August 2008

linhas direitas #1

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Preciso de te encostar ao meu peito para que oiças o batimento do meu coração. Para sentires como ele corre por ti e quase pára quando não estás. Preciso de te sentir seguro e segurar-me contigo, porque a viagem é longa. E eu quero chegar lá. Quero muito. Seja lá onde isso for. Quero chegar lá contigo.
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filipaferreira 08-08-08

Sunday, 3 August 2008

emes


Precisava de saber se vou viver para sempre para atar de vez este nó na garganta, até lhe cortar o fôlego.

Estes silêncios afundam-me na minha própria fuga. Em caminhos que procurei e vidas que não fui. Em pessoas que passaram mas nunca estiveram. Umas que viveram. Outras que morreram. Outras que viveram tão depressa e desapareceram tão depressa, que mais parece que nunca passaram. Que nunca estiveram. Que nunca chegaram a ser.

Os sentidos não são as letras nem as frases. São as histórias. As curtas. As enviesadas. As omitidas. As francamente reveladas. As que não fazem sentido se não houver quem as transporte no tempo.

Pergunto-me hoje quais são as que transporto. Quem transportará a minha no amanhã. E perco tempo. Perco tempo enquanto penso. Enquanto me deixo submergir neste nó. Se ele é maior que eu?! Ele é maior que eu. Às vezes. Só as vezes. Enquanto deixo de respirar e penso na efemeridade das coisas. Na efemeridade de mim.

Portanto, acreditar que serei para sempre, que estarei para sempre, faz-me viver. Concretizar a ideia que sou um somatório de pessoas e não uma só.

Não moro aqui. Não estou aqui. Sou de todo o lado, e irei até onde me levarem. Transportem a minha história com o mesmo poder de pertença com que transporto a vossa. Unir-nos-emos naquele sítio que arremata a solidão em gomos por deixarmos de lhe pertencer. E a vida será nossa.

Até lá, não falo mais sobre isto. Recuso-me a acordar com “emes”, “és”, “dês” e “ós” na cabeça. Recuso-me a deixar de viver no momento em que permito que o resultado da sua soma seja maior que o poder que sempre terei de aumentar a minha. De aumentarmos a nossa. De viver.


filipaferreira 03-03-2008

Wednesday, 2 July 2008

De olhos fechados

Chegaste de mansinho sem te anunciares. Não bateste a porta. Começaste por preencher os espaços que me faltavam. Decoraste o resto com “sei lá o quê”. Desarrumaste tudo.

Nunca te disse o que isso significou para mim. Nunca te falei dos passos que foste percorrendo sem sentires. E eu sem saber, os que fui percorrendo atrás de ti. De olhos fechados. Sempre de olhos fechados.

Porque se alguns dizem que o amor não se vê nem um palmo à frente do nariz, eu digo-te que o vejo de olhos fechados. Porque te vejo a ti quando os fecho. Vejo-te nas lembranças que somos e no futuro em que nos projecto.

Não sei se já te contei algum dos finais felizes que, de olhos fechados, já vivi por nós. Uma vida na qual só tu cabes. Que só tu sabes de cor.

Poder-te-ia contar um ou outro. Mas é isso o amor. Ansiar desesperadamente ver, ao abrir os olhos, quem desenhamos na perfeição de olhos fechados. E eu anseio muito. Muito.

Por isso não te conto nenhum. Porque prefiro viver-te até à exaustão a cada dia que passa. Inventar contigo novos sinónimos para a palavra “amor” e ter e certeza que só tu, e apenas tu, os saberás sempre de cor. Confirmar a cada dia que passa que é impossível que a vida me separe de ti, porque jamais nos podemos separar daquilo que somos.


Poder-te-ia contar um ou outro. Por isso não te conto nenhum. Porque para isso teria que te contar que todos começam e acabam da mesma maneira. Tu a chegares de mansinho sem te anunciares. E eu a rezar para que nunca mais te vás embora.


filipaferreira 02-07-2008

Sunday, 1 June 2008

tributo ao amor

Pensei que fosse mais fácil matar-te dentro de mim. Sufocar-te até não poder mais. Tirar-te o ar que me tiras tu a mim, e devolver-mo como prémio de consolação.

Mas canso-me mais agora. Muito mais do que quando possuías o meu corpo e dilaceravas a minha mente. Afinal sempre estava dependente dessa dependência que dominava o meu tempo.

Passam os dias, e sem perceber muito bem como e porquê, vou eu passando com eles. Um passar meio passeio depois da idade da reforma. Não espero por ti em lado nenhum porque não te deixei um papel com a minha morada, uma pista do meu número de telefone. Cansei-me de o fazer. Afinal, nunca vieste, nunca respondeste aos meus bilhetes, deixaste de me acenar na rua.

Morreram os tempos em que me deixava consumir pelo desejo de um beijo teu. Morreram aqueles em que me afogava na memória de uma presença tua. Morreram os meus agora que não estás.


Ainda não saí do mesmo sítio. Mas não espero por ti em lado nenhum. É melhor assim.

Lava-me, esfrega-me a pele. Limpa-me desse teu cheiro, da necessidade do teu corpo. Esfrega-me até não poderes mais, até fazer sangue, até deixar de ouvir a tua respiração, até o mundo deixar de ouvir a minha, não importa. Não importa o mundo. Não importa a vida. Não importa o tempo. Não importa tudo... porque não estás.


filipaferreira 01-06-2008


ao som de Citizen Erased - Hullabaloo, Muse

Thursday, 8 May 2008

momento 7|5


Porque me calas os sentidos num arrepio de pele

me inundas num sorriso que não controlo,

e me carregas contigo nesse mundo de elefantes e cores gigantes.

Um dia faço-te o rascunho do sentimento,

pinto-te a loucura do momento...

Hoje, ele preenche-me a mim.
filipaferreira 08-05-2008

Thursday, 24 April 2008

SIM

Perguntas-me como. Eu respondo-te "não sei". Não tencionava dirigir-te estas respostas vagas. Não queria iludir-te com meios termos. Lembro-me dos sonhos que tenho e escolho quais das partes não contar para que se realizem.

Na realidade encontrar-te-ia nesse vasto oceano em que me escondo eu. E perder-te-ia outra vez porque não me encontro a mim. Não estou ao virar da esquina. Não espero o pôr-do-sol numa esplanada do quiosque. Não guardo livros numa estante à espera que o tempo passe. Não os leio com medo que ele se esgote.

Por isso aqui estou eu a gastar o tempo que demora um cigarro a queimar. Outro. E isso não me assusta. Ver aparecer a cinza, expulsar-lhe o fumo, frente ao mar nesta janela de hotel. Ter-te aqui, nesses lençóis tão pouco brancos. Mas perto. Perto do alcance de um olhar.

Sei que me lês os pensamentos. Afinal já ocupei este lugar vezes demais para que não tivesses decorado a moral da história. Mas não hoje. Hoje decidi que fico. Fico até não poder mais. Fico até conseguir dizer que sim. Porque é sim. SIM. Fico para te abraçar. Fico para te ver ficar, ou partir primeiro. Fico porque não me escondo mais.

Acordas e estou a teu lado. A incredulidade não absorve a tua capacidade de previsão. Chamar-lhe-ia querer…

Perguntas-me:
-
Ficaste?!

Respondo-te:
- SIM. O mar hoje está bonito demais para que me consiga ir embora.



filipaferreira 24-04-2008

Sunday, 30 March 2008

suor

hoje sonhei contigo. navegavas no mundo dos meus sonhos com aquele à-vontade de quem tem as chaves de casa do mundo para entrar. aumentei o volume. adicionei-lhe cor. na limpidez de uma memória putrificada no tempo, as recordações bóiam no espaço de uma operação matemática em que o resultado és tu. porque me apareces assim?! nesses resquícios de pensamentos que não controlo?! nessa aparição fugaz que me inunda de desejo?! entro nesse carrossel de emoções sem medos nem resguardos. tenho medo que o tempo o leve. afinal, lá sou feliz. lá, compras-me nessa loja de antiguidades em que ninguém me quer, restauras-me, e colocas-me frente à janela que apanha mais sol na tua casa. não, não me vendo. não sou minha. não sou de ninguém. sou momentaneamente de quem me compra, de quem possuí o meu corpo. não tenho medo que me troques por algo de igual valor. não tenho medo que me devolvas no prazo de quinze dias ou um mês. sei o que valho. sei o que sou e não sou de ninguém. sou tua quando me possuís, quando fazemos amor. sou tua quando me levas à exaustão do prazer e me fazes suar em linhas sem parágrafos. sou tua enquanto navegas nessas marés de sonhos que me fazem delirar as entranhas. anseio o prazer. depois anseio-te a ti. serei talvez tua, se ninguém me tiver comprado antes, se me apareceres nas flutuações da vida. até lá sonho. vivo. deixo-te correr nas veias dos meus sonhos e não te peço para fechares a porta depois de entrares. fecho-a eu. chegas-me assim. nunca serei inteiramente tua. jamais eternamente de alguém. quero que fiques. quero que venças sempre o jogo nesse meu mundo dos sonhos. só lá. e apenas lá. chegas-me assim.


filipaferreira 30-03-2008

Tuesday, 11 March 2008

porquê.


quando procurei por ti já não estavas. e pensar que corri depois do trabalho para comprar os bolos e o chá de que tanto gostas. mas já me habituei a estas ausências em espaços aos quais nunca pertenceste. pertenceram-te eles, mesmo quando a tua presença não era mais do que uma esperança, um simples odor que reconstruía do que restou na minha memória do que foi em tempos o teu perfume. ponho o CD de música clássica, e enquanto o perscruto, vêem-me à memória as lembranças da tua roupa espalhada pelo chão, dos livros tão imprópriamente deixados em qualquer lugar, da toalha de banho molhada em cima da cama. todos os dias esperei por ti, e senão assim, em cada viagem de regresso a casa, rezava para poder encontrar toda esta desarrumação tão característica da tua presença. preferia tudo isto, mesmo quando me enfurecia. continuo a preferi-lo hoje. não me pertencem a mim este conjunto de silêncios que não encaixam neste espaço, de faltas de sentido na minha vida. pergunto-me hoje, se te tivesse dito tudo isto, se mudaria alguma coisa. afinal todo este vazio que carrego não é mais do que a desarrumação dos sentimentos contraditórios em que me tornei. não me questionas. eu respondo porquê. porquê hoje. porque é que ao fim de 20 anos de silêncios ensurdecedores, esperei por ti para lanchar. hoje, no trabalho, pediram-me para pintar o amor. deixei a tela em branco. porquê. menti... nunca me habituei à tua ausência. talvez por isso continue a procurar por ti neste espaço. encontro-te. porquê. porque sei que só a ti ele algum dia pertenceu.


filipaferreira 11-03-2008

Wednesday, 6 February 2008

carta

Faltam-me as palavras para decifrar o que resta da vontade que não é a minha.

Afinal desistimos. Gravámos o sabor do último abraço, do olhar até sempre. Lutámos sempre de menos, vivemos sempre de menos, como se espera de um rewind com uma pausa assim. Chamar-lhe-ei pausa. Uma pausa para sempre num amor demasiado intenso.

O que nos faltou foi isso. Aquilo que este vazio não me deixa ainda ver.

E se o amor não nos deixa ver nem um palmo à frente do nariz, talvez estivessemos estado sempre um palmo atrás do nosso.

Não construímos os alicerces, nem destruímos as brasas. Chamámos-lhe um dia amor, vivemo-lo um dia, e hoje em dia olhamos as cinzas com sabor a saudade, tentando preencher essas ausências que lhe faltaram.

Talvez o caminho seja só este. Será. Nunca houve nenhum “tarde demais”. Estávamos lá os dois. Caminhámos os dois para aquela estação de comboios, em que metade do dinheiro com que compraste o bilhete, era meu. Chegámos a horas, e ainda esperámos dois minutos. Tempo suficiente para não sei o quê. Não sei o quê.

Carreguei-me contigo na tua bagagem antes de entrares. Foram os dois minutos da minha vida. Não nos olhámos, não colámos as mãos ao vidro. Não era uma despedida.

Vi o comboio partir, e já sabia que era para sempre.



filipaferreira 06-02-2008

Saturday, 12 January 2008

aprender

Passou mais um ano e de punho cerrado guardo o que viajou comigo através dele, o que desembarcou comigo.

Aprendi que sempre fizeste parte de mim mesmo que tenhas embrulhado e desembrulhado esse ponto final que me ofereceste.

Aprendi que as fotografias guardam momentos que ficam para sempre gravados em nós. Imprimi algumas do album que ficou gravado em mim.

Aprendi que as recompensas não têm prazos, não têm tempo. Não vale a pena esperar por nada que não seja conseguido com amor.

Aprendi que há pessoas que nunca serão felizes por aquilo que não constroem. Tive a certeza que não sou uma delas.

Aprendi que tudo à minha volta é tão mais belo do que a beleza que lhes vejo. Aprendi que belo é ter os que amo para olhar comigo.

Aprendi que todos os dias erro. Que todos os dias volto atrás sem sair do mesmo sítio. Que todos os dias fujo e alcanço. Que todos os dias cresço.

Aprendi que o que é verdadeiro perdura e o que nunca foi ou deixou de ser é uma página virada. Não virei nenhuma.

Ao invés construí letra a letra a história que me acompanhou. Reinventei as palavras, dei-lhes o meu sabor, conduzi-lhes as frases. Porque a cerrei, a história essa, nos meus punhos com toda a força que sou. Dei-lhe força e fi-la viajar comigo... não mais do que viajo eu com ela. Para mim uma viagem sem fim.

Aprendi a agradecer. Obrigada.


2008 felizes aprendizagens para todos